Vocês bem queriam que eu dissesse ''Encontro com Deus'', né? Vão ter de esperar mais um pouquinho para ver que encontro foi este... Na verdade, esta crônica é a junção de 3 possíveis crônicas. Em um primeiro momento- por sinal o tempo está ''ruim'', na minha modesta opinião, faz sol...- eu fui deixar roupas em uma lavanderia próxima. Enquanto estava sendo atendido, uma música de Rita Lee tocava ao fundo, ''Meu Doce Vampiro'': ''(...)sempre reclamando da vida, me ferindo e me curando as feridas(...)''. No mesmo instante entrava na loja uma senhora de idade e, por incrível que pareça, ao invés de reclamar de alguma coisa ela comentou: ''que bom que o inverno está chegando, com o fim daquele calor insuportável''...Eu achei graça do contraste entre o comentário OPORTUNO e SAGAZ desta senhora, referendado pela funcionária da lavanderia que nos atendera, e a letra da música. Mas outras emoções me aguardavam, suficientes para outras duas crônicas independentes. Acho que a letra da música de Rita Lee foi PREMONITÓRIA, e vocês vão ver porque...Decidi almoçar, como faço pelo menos uma vez por semana, em um restaurante de Higienópolis que tem um bufê formidável. Mas é mais que um simples bufê. Tem uma mesa de massas fantástica, no meio do restaurante, onde escolhemos diretamente as massas que queremos comer. Tem combinações como ''pizza com salada'', ou ''salada com grelhados''( frango, peixe, picanha, cordeiro, etc.). Faz parte de uma rede de restaurantes- Ráscal- espalhada por toda a cidade. Pertence ao mesmo grupo do ''Viena''. Enfim, é um senhor restaurante, de muita qualidade e preço mais ou menos acessível( fica entre os mais baratos e os mais caros, em um nível intermediário). Ele fica situado bem na entrada do shopping Higienópolis, com um lado externo que tem uma bela vista de todos que estão passando. Já tirei até uma foto da fachada do shopping, que vocês verão...qualquer dia destes! Faltavam 20 minutos para 1 da tarde. O restaurante ainda estava vazio. Eu fui o primeiro a ocupar uma das mesas da área externa. Comi um prato de saladas e, por incrível que pareça, em meio ao burburinho das pessoas que passavam e daquelas que conversavam em alta voz em um café próximo- Cristallo- eu pude identificar o som de um passarinho. Eu juro! Em meio ao eterno e onipresente ruído paulistano, que cotidianamente deixa a mim e aos demais meio surdos, eu ouvi um passarinho cantando, e ele fazia ''piu, piu, piu'' espaçadamente, e de uma forma que eu jamais havia escutado. Parecia sozinho. O som era baixo, mas suficiente para qualquer um que quisesse ouvir. Então foram se acomodando outras pessoas na área externa. Primeiro um casal de idosos em uma mesa distante. Depois uma senhora em uma mesa mais próxima. De repente, eu começo a ouvir um diálogo mais alto que o normal em uma mesa bem próxima também: ''porque eu disse para o Gushiken isto'', ''porque o Ministério da Pesca aquilo'', ''porque há um grande interesse no exterior pela pesca no Brasil'', ''porque a montadora tal copiou o slogan do meu programa 'No coração do Brasil' ''. Nesta hora a conversa, que eu buscava evitar pensando tratar-se de mais um destes sindicalistas pelegos que circulam como peixes dentro d'água em Brasília e no governo Lula, começou a tomar outro signicado. Juntos os termos ''Band'' e ''No Coração do Brasil'' deram um ''click'' dentro de minha cabeça e eu voltei a cabeça para o lado onde estava sendo emitida a conversa. Lá estava o jornalista José Luís Datena, do programa ''Brasil Urgente'', e equipe. Ainda dei outras duas olhadas para a mesa, a esta altura o centro de minhas preocupações, e não mais as comuns e belas ''mortais'' que passavam pela minha frente na mesa estrategicamente localizada em frente à entrada do shopping ...Pedi um café e a conta e, na hora de assinar a nota, solicitei ao garçom que trouxesse um pedaço de papel. Subitamente, os demais membros da equipe se levantaram em conjunto, deixando o ''Datenão'' só por um minuto. Peguei a caneta com que assinara a nota, o pedaço de papel, e me aproximei em um pulo da mesa vizinha. ''Datenão, eu e meu pai somos seus fãs. Você poderia me dar um autógrafo?''. Muito simpático ele atendeu o meu pedido. Eu ainda comentei: ''Que pena que eu não trouxe o meu celular para documentar este encontro especial''. Ele perguntou qual era o número do meu pai. Sacou um Iphone último tipo, digitou o código de Brasília- 61- e o número que eu havia dado. ''Como vai, seu Alcindo?'', ele saudou quando meu pai atendeu. ''Eu estava aqui, almoçando, quando encontrei o seu filho''. Nesta hora a música de Rita Lee meio que deu o ''fecho'' da coisa toda: ''sempre reclamando da vida, me ferindo e me curando as feridas''. A quem mais se aplicaria a letra de ''Meu doce vampiro''? Duro com quem merece- políticos e bandidos- e extremamente doce com seus fãs e com os desprotegidos da vida. Com um linguajar rude, meio ''peão'', abusando de expressões rudes como ''porra'' e ''cara...'' misturado com o assemelhado ''caramba''. Um homem bem sucedido, competente no que faz, comendo em um lugar bacana, alguém que eu imaginava cercado de seguranças por todos os lados, mas cercado apenas por um pequeno grupo de assessores, e que também tem um pé na chamada ''realidade'', mostrando diariamente as mazelas que este país tanto produz. Que se indigna com aqueles que lucram com a violência, a miséria, e torcem para que as coisas continuem assim. Este cara- o ''Datenão''- é a síntese do Brasil. Eu, como todo mundo, gosto destes caras que ''descem a lenha'' em políticos e autoridades incompetentes. Admiro Diogo Mainardi, que já vi outrora em uma casa de sucos de Ipanema, no Rio. Alguém tem mesmo que ''meter o pau'' nesta corja toda. Mas isto tem um preço, e você deve estar amparado em alguma instituição forte para poder pagá-lo. O preço maior é passar uma existência inteira revirando esta m...toda, sem ver coisa alguma mudar. Já estou cansado disto tudo, ainda que supostamente ''apenas'' no meio de uma vida. Deixo o palco para os bravos ''combatentes'', e volto a prestar atenção em dias frios, passarinhos cantando em meio ao barulho da metrópole e outras ''alienações'' do tipo. A vida continua...PS: Um encontro especial destes, e eu nem para sair com o meu celular para fotografar a coisa toda...Que ''jornalista'' é este??? O dia, na ''pequena'' metrópole onde tudo parece possível, está apenas começando...
quarta-feira, 18 de junho de 2008
terça-feira, 17 de junho de 2008
Tempo bom...
Hoje até fez um solzinho mais quente que o de ontem. Cheguei a sentir um pouco de calor no início da tarde, e marcou 19 graus na Paulista esta hora. Mas este não é o ''tempo bom'' do título...''Tempo bom'' é apenas uma convenção. Você chega a outra cidade, pega um táxi, e já vem aquele manjado comentário de que o tempo está ''bom''- leia-se sol aberto, forte- ou ''ruim'', o oposto. Embora esta CONVENÇÃO- a de que há um tempo ''bom''- esteja disseminada por todas as partes, ela não se aplica a todo mundo. Para mim, o tempo está bom quando faz frio. Está bom quando chove. Está bom quando ponho dois ou três casacos, e saio para caminhar, e o sol está por trás das nuvens...É, por mais estranho que isto possa parecer, eu detesto calor. Um pouco de sol, e já começo a transpirar. Tenho de usar, para me sentir melhor, umas 2 a 3 camisas diferentes nestes lugares muito quentes. Sem contar a chatice que é ter de tomar banho toda hora. O frio, por outro lado, é bom. Muito bom. O frio me desperta, enquanto o calor amolece. O frio arrepia. O frio me faz sentir vivo. Um dos melhores filmes que assisti no Festival Internacional de Cinema de São Paulo, ano passado, era um filme argentino. Nele, um casal trafega com uma menininha. Um carro se choca contra o veículo deles. Aí o filme já passa para um lugar bem frio, na Patagônia Argentina. O pai foi o único sobrevivente, ao que tudo indica. Ele vai trabalhar no Sul do país vizinho, em um Aeroporto. Devido ás condições inclementes de tempo, pouquíssimos aviões conseguem pousar naquele lugar tão inóspito. O cara fica o tempo todo recebendo misteriosas ligações em seu celular, mas nunca as atende. Nem quando é incentivado pelos colegas a fazê-lo. O final eu não conto. Mas não há nada como um lugar frio para curar qualquer ferida, para nos fazer esquecê-las, para nos fazer concentrar-nos no que é essencial ali: sobreviver. Gaúchos, uruguaios e argentinos costumam- para meu prazer- fazer volta e meia estes filmes ''on the road'', nos quais as pessoas fogem para lugares frios para resolver dilemas existenciais. Pode ser até uma praia, mas fora da temporada. Aquela praia imensa, com muitas dunas, mas deserta...Por este costume, que me é tão simpático, considero estes povos minhas nações afins. Irmãos. O ''frio'' aqui bate recordes. Chegou a 7 graus esta manhã. É bom, muito bom. Melhor ainda ler que, em Curitiba, chegou a 1 grau negativo...A 5,7 graus negativos em São Joaquim- SC...O tempo bom, para mim, se espalha por todo o Sul e o Sudeste deste país. Uma bela confraria de casacos, cachecóis, meias de lã, sobretudos se espalha pelas ruas da cidade, mesmo que sejam na verdade velhos- de outras temporadas. Eu tiro os meus do armário, com cheiro estranho de naftalina. Sequer posso usá-los direito. Mesmo os mais finos, com uma camiseta por baixo, me causam calor. Transpiro. Acho que já falei nisto, não? Será que estamos no início ou no fim deste post? Talvez sejam apenas reflexos de um tempo- bom ou ruim, não importa- congelado...Acho que o ''céu'', caso exista, deve ser deste jeitinho: tudo branquinho( ou ''cinzento'', para os críticos), frio, geladinho...E Deus- oh, blasfêmia!- deve ter a aparência de um esquimó ou um pinguim...
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Frio com sol
Inacreditavelmente, não estava frio dentro de casa. Pensei até em botar uma camisa de mangas curtas. Porém, antes de sair consultei o site do Yahoo, e sua previsão de tempo. Pelo site, estava fazendo 11 graus, com máxima de 16 prevista para a tarde. Após o almoço, cruzei com várias pessoas- quase sempre mulheres- com braços cruzados e cara de quem estava sentindo muito frio. Era início de tarde, e o relógio de rua em frente ao Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, marcava 12 graus. Conforme ia andando, o tempo foi abrindo. Cheguei mesmo a lamentar não ter levado o meu protetor solar de bolso( isto antes de ver quanto marcava o primeiro relógio de rua, aquele dos 12 graus...). O sol foi me acompanhando, e ditando a leve subida de temperatura. O próximo relógio de rua marcava 13. Na altura da Brigadeiro Luís Antônio, meu ponto final de caminhada, já estava marcando 14. A volta foi contra o sol, mas pela rua paralela à Paulista- Luís Carlos Pinhal. Como sempre, fiz questão de passar pelo Elevado sobre a Avenida 9 de Julho. Que tem uma bela vista panorâmica, e altura equivalente à de um prédio de 7 andares. Em um café, entre executivos e adolescentes, havia uma senhora oriental com seu filhinho. Ela falava chinês, que eu aprendi a diferenciar do japonês pelos filmes chineses. O linguajar do país mais populoso do mundo é meio musical, tem uma sonoridade bem peculiar. O tempo mudava rápido como meus pensamentos. E senti que, desta vez, não haveria nenhum lugar especial de chegada, ou uma ''mensagem'' por trás daquilo que descrevo. Passeei. Passei.
Ainda Flamengo X São Paulo...
Mais que uma simples partida de futebol, este foi o confronto de duas cidades e de dois estilos. Os ''atirados'' e apaixonados cariocas, que se lançaram desde o início do jogo em busca do gol, incentivados pela multidão presente de mais de 55 mil torcedores. Contra os ''contidos'', eficientes, ''low profile'' paulistanos, que não foram ao Maracanã para garantir um empate ou se limitar a defender. Este seria o caminho certo para o insucesso...O São Paulo, nos contra-ataques certeiros e fatais, é mais do que um time: é um fenômeno da natureza. Como os furacões e os tsunamis...Caio Júnior, o treinador ''boa praça'' do Flamengo, é desenvolto, fala mansa, extrovertido. Como o time que comanda. Já o treinador do São Paulo, Muricy, mais parece um mineiro. É econômico nas declarações, sarcástico, sizudo, rabugento. Mesmo quando ''abre a boca'', Muricy aparenta muito mais estar desviando as atenções dos jornalistas- que o adoram por suas declarações ''sinceras''- do que revelando alguma informação relevante. É este estilo ''low profile'' de Muricy que disfarça o fato de que sua equipe, que para muitos ainda não ''encaixou'' este ano, está sempre entre os primeiros em qualquer torneio que dispute. Assim foi no Paulistão, onde chegou ás semifinais, bem como na Libertadores. Muricy jamais pode ser subestimado. Parece ''bronco'', inclusive na aparência, mas é, na realidade, um jogador de xadrez. É viciado, como todos os grandes talentos em qualquer área, naquilo que faz- e muito bem. Nas horas vagas assiste jogos de outras equipes, inclusive de basquete, para analisar suas posturas táticas. Neste Flamengo X São Paulo do último fim-de-semana, Muricy deu mais um de seus ''bailes'' nos técnicos adversários. Alguém duvida que o São Paulo já é um dos favoritos ao título? Não perguntem isto ao Muricy. O negócio dele é fazer o tipo ''aborrecido'', ''preocupado''...
Do infinito: trecho do último livro de Deepak Chopra
''Quando minha neta estava com quatro anos, eu a levei para um passeio na praia. Era uma noite linda, e as estrelas e a Lua brilhavam no céu. Eu me virei para ela e disse: ''Tara, eu a amo muito''. Assim que terminei de dizer a frase, ela perguntou: ''Quanto?''. Eu disse: ''Bem, eu a amo mais que as estrelas e a Lua''. E assim que terminei a frase, Tara perguntou: ''Por quê?'' Eu respondi: ''Porque você veio de lá''. E ela: ''Como?''. Pensei com meus botões: Não sei se consigo explicar isso para ela, mas vou tentar. ''Sabe, Tara, quando você come frutas e verduras, foi a luz do Sol, das estrelas e da Lua que fez a comida que você come. E, quando você come, está pegando a luz das estrelas para formar o seu corpo, porque tudo vem da luz. Você é um ser de luz; seu corpo é feito de luz''. Tive mais uma idéia e disse a ela: ''Até mesmo seus olhos são feitos de luz. As estrelas fizeram seus olhos para que elas pudessem se ver''. Tara pensou, pensou, e pela primeira vez ficou em silêncio. Mas, quando estávamos indo embora da praia, ela disse: ''Vovô, olhe para cima. As estrelas querem se ver''.
( Fonte: ''A fonte da felicidade duradoura': Poder, Liberdade e Graça"( em inglês: Power, Freedom and Grace), de Deepak Shopra, Editora Best Seller, 2008, páginas 185/186).
Filme interessante
A julgar pela reação da crítica, pensei que este ''Fim dos Tempos''( The Happening)- do diretor M. Night Shyamalan- seria mais uma ''bomba''. Muito pelo contrário. Aliás, ao reverso do que acontece tradicionalmente nos filmes atuais, muito explícitos e cheios de efeitos especiais, a estória é narrada em um crescendo. Pessoas param em um parque de Nova Iorque. Em outro lugar da cidade, outras começam a pular do alto dos prédios, em um estranho ímpeto suicida coletivo. Isto, e mais a musiquinha de suspense de fundo, começa a atrair a nossa atenção de modo irresistível. Notícias desencontradas informam que pode tratar-se de um ataque ''terrorista''. As pessoas fogem em massa. Uma coisa interessante foi ver como é a reação atual a uma catástrofe. Este filme retratou muito bem o que é uma catástrofe nos nossos tempos midiáticos. Todos tentam comunicar-se freneticamente com seus parentes por meio de...celulares...O truque funciona por um tempo, até que os celulares emudecem definitivamente. A viagem/fuga de trem dos protagonistas acaba em uma pequena cidade do interior, quando os funcionários do trem perdem qualquer contato com as demais localidades. Não há um vilão ''personificado''. A explicação, fantasiosa mas bem interessante, é que as plantas costumam reagir quando atacadas. Aquela seria a reação da natureza ao ataque dos humanos, emitindo um gás que eliminaria o senso de auto-preservação das pessoas e levando-as ao suicídio. Um filme de suspense com mensagem ecológica: o que mais poderíamos esperar? ''Fim dos tempos'' é diversão garantida. Nenhuma pretensão a obra-prima( o próprio diretor disse tratar-se de um filme ''tipo B'', ao estilo dos filmes com monstros dos anos 50). A estória é convincente, e cada ''ventinho'' que sacode as plantas nos dá um arrepio correspondente também...O filme consegue a difícil proeza de acalmar e silenciar as ruidosas platéias contemporâneas, e isto também é muito bom...Resta saber se agradará as platéias norte-americanas, uma vez que o nome do Diretor M. Night está em jogo. Mais um fracasso...Isto é o que deve estar assustando o próprio cineasta neste instante...
Um jogo memorável
Para um semestre cheio de grandes partidas de futebol, praticamente uma a cada quarta-feira- o dia dos ''Matas-matas''- é difícil qualificar este jogo ocorrido entre Flamengo e São Paulo, no último sábado. A primeira expressão que me vem á cabeça é ''Jogo do Século''. Mas logo penso melhor, e lembro que dois outros jogaços foram as duas partidas entre Fluminense X São Paulo, e Fluminense X Boca, sem contar as finais e semifinais dos Campeonatos Carioca e Paulista, e a recente final da Copa do Brasil...Enfim, mais apropriado seria qualificar a partida entre o tricolor paulista e o rubro-negro carioca como uma verdadeira DECISÃO do Brasileiro, sem nenhum exagero. Não é fácil jogar lá dentro do ''Caldeirão'' dos Urubus. Lá, eles venceram praticamente todas as partidas que fizeram no último Campeonato Brasileiro. Nem o campeão São Paulo conseguiu vencer lá. Aliás, perdeu por 1 X 0...A torcida pega no pé dos adversários mesmo, e os medianos jogadores flamenguistas viram ''leões'' incentivados pela massa que, como em Roma, ''quer ver sangue''... Neste último jogo, por sinal, até o juiz foi pressionado. Após ter a coragem de anular um gol ilegítimo do Flamengo, o árbitro deu uma ''mãozinha'' para compensar. Aliás, duas: dois pênaltis para o time da casa. Tudo conforme o figurino dos ''caldeirões''. Porém, do outro lado estava uma equipe guerreira e muito aplicada. Um time sem estrelas, agora que Adriano está de volta ao futebol europeu( aliás, como melhora este São Paulo sem Adriano...). Mas muitíssimo bem treinado. O São Paulo fez seu primeiro ataque apenas aos 25 minutos do primeiro tempo. Marcou...O Flamengo foi para cima, empurrado pela massa. Marcou no início do segundo tempo, de PÊNALTI. Nem assim o São Paulo deixou-se intimidar e, em dois contra-ataques, calou a torcida rubro-negra( auto-intitulada a ''maior do mundo'')com dois gols. Jogo decidido? Nunca, quando o negócio é Flamengo. Mais um pênalti, defendido parcialmente por Rogério Ceni mas convertido por Marcinho no rebote, e o Maraca volta a levantar. O Flamengo vai com tudo para o ataque. Faltam cerca de 20 minutos. O script parece indicar uma reação, uma virada rubro-negra. A torcida começa a gritar que o mengão é o ''time da virada''. Luzes se acendem por todas as arquibancadas. Mas o São Paulo, atual campeão brasileiro, não estava ali para ajudar, como mero coadjuvante. O time se fecha, bem ao estilo Muricy. Sua formação inclui uma linha de quatro, na defesa ( um dos quais fazendo papel de líbero), cinco no meio campo, e apenas um atacante. ''Defensivo'' este Muricy, né? Com esta formação o time fez o QUARTO gol já nos acréscimos, calando a imensa torcida local no ex ''maior do mundo''. Venceu um rival que disparava na liderança. Com esta vitória o tricolor paulista começa a ''botar fogo'' na disputa do Brasileirão/2008. Lembrem-se que foi no Maracanã, contra o Botafogo carioca, que o São Paulo( com uma expressiva vitória por 2 X 0 sobre o então líder do Brasileiro)começou a conquistar o título do ano passado. O semestre está terminando, mas não as emoções ligadas ao futebol. Estas estão ainda no início. E, para imitar algum destes inúmeros narradores do esporte bretão, ''haja coração!''. Semana que vem tem a final da Libertadores...
quinta-feira, 12 de junho de 2008
O ''futuro'' da imprensa...
Acabei de ler, com certo atraso, duas das profecias mais terríveis sobre o futuro da imprensa e da literatura já feitas. A primeira foi em uma entrevista com o escritor norte-americano Norman Mailer. Segundo ele no futuro, em cerca de 20 anos, os ''leitores'' serão um grupo ainda mais restrito. Como hoje são os adeptos de música clássica...A leitura como uma prática de uma seita, um grupo minúsculo. Algo no estilo ''Farenheit'', com a diferença em que, naquela obra, a leitura era proibida. Uma iniciativa do gênero, hoje em dia, seria ridícula e desnecessária. A leitura já é algo ''secundário'' na vida de muita gente. E, no entanto, escreve-se como nunca...O segundo prognóstico aterrador foi feito em um especial sobre o futuro da imprensa publicado no caderno ''Mais'', da Folha de São Paulo. Nele, na verdade uma tradução de um texto publicado na revista ''New Yorker'', mostra-se que o valor dos ''jornalões'' está em queda livre nos Estados Unidos. Com quedas de até 80% de seu preço de mercado. E que, de 1990 em diante, cerca de 25 por cento de todos os empregos na área do Jornalismo foram extintos. A imprensa brasileira sonha estar fazendo uma trajetória oposta, alardeando um suposto ''crescimento'' na tiragem dos jornais, mas, na verdade, boa parte dos números divulgados deve-se ao crescimento dos jornais gratuitos, como o ''Metro'' de São Paulo, ou daqueles ditos ''populares'', versões diminutas- em todos os sentidos- e baratas dos jornais tradicionais. Os preços variam de 25 centavos a 1 real. Seus leitores estão ''lendo'', assim como os leitores de certos ''best-sellers''. Nem por isto podemos falar em um fortalecimento da literatura, e muito menos do jornalismo impresso. Tudo isto, mostrado pelos próprios ''jornalões'', é muito incômodo, assustador. Mas não precisamos ir muito longe para constatar estes fatos. Tirando o diário esportivo ''Lance'', não costumamos ver adolescentes comprando jornais, ou com jornais nas mãos...
Cena bucólica, ao cair da tarde...
Hoje foi um dia banal, sem novidades. Sem descobertas, ou caminhos nunca percorridos. Tudo foi igual até um momento, no meio da tarde, em que saí para fazer compras em um supermercado próximo. Descendo as ruas dos Jardins, de repente senti ''aquele'' ventinho gostoso, de mudança de tempo. Nada excepcional. A previsão é que, neste fim-de-semana, a temperatura permaneça na mesma faixa, típica de outono- 24,25 graus. O ventinho não era frio. Não prenunciava uma noite de temperaturas baixas. Ele ''apenas'' deu aquela refrescada, um pequeno sinal de transformações potenciais em meio a uma realidade supostamente igual ao de ''sempre''. Gostosa recordação de tempos ancestrais em que, para nós, TUDO dependia do tempo, e nos quais adorávamos ''deuses'' como o sol e a lua...Este vento me empurrou, e não foi para baixo...Este fato foi o principal do meu dia. Que as coisas continuem assim, ''pequenas'', ''banais'' confrontadas com a realidade dos noticiários...
Já estamos em um futuro profetizado por alguém...
Sabe aqueles filmes de ficção científica estilo ''Blade Runner'', com as cidades sujas, poluídas, super-lotadas, divididas e muradas, e ainda caindo uma eterna chuvinha do céu? O gênero scifi sempre se notabilizou por buscar retratar um futuro que ainda não havia chegado. Exagerava-se as piores características do presente, como uma espécie de alerta para dias piores que poderiam vir. Pois hoje ''caiu a ficha'', e eu refleti- por breves instantes- que este futuro ''tenebroso'' já pode ter chegado. A estreita ligação entre automóveis e morte foi bem retratada por J.G. Ballard em sua obra ''Crash'', que posteriormente foi filmada. Hoje os automóveis, ao menos no Brasil, são muito mais que um meio de transporte. Mata-se cotidianamente- em brigas, atropelamentos, batidas, etc.- e, este ano, o suicídio de pessoas passou a assumir características perigosas: pessoas que viveram na ''contramão'' escolhem agora a contramão como meio para morrer. São 7 casos apenas nas estradas do Estado de São Paulo em cerca de 3 meses...É o suicídio ''espetacular, midiático''. Uma espécie de ''roleta russa'' sobre 4 rodas. Os suicidas, não referidos assim pela imprensa e pelas autoridades, para as quais tudo não passa de ''acidentes'', sonham não apenas com a própria morte- mas também com a possibilidade de levar outros consigo. Fracassam até em seus últimos projetos. Pelo menos 2 se chocaram contra carretas, cujos motoristas mal sentiram os efeitos do impacto...Outro dia, no Japão, um jovem escolheu uma movimentada região comercial do centro de Tóquio para atropelar diversas pessoas com uma caminhonete, além de esfaquear diversos dos passantes. Ele alegou que estava ''cansado da existência''. Alguém com certeza deve ter imaginado tudo isto, uma realidade em que estamos todos ''próximos'' uns dos outros- graças à Internet e aos meios de comunicação de massa- e, ao mesmo tempo, mais distantes do que nunca. Vários destes ''solitários doidões'', que sequer tem recursos para pagar um psicanalista para ouví-los, sonham neste momento com um ''grande gesto'' capaz de ''acabar com o seu sofrimento'', silencioso e ignorado pelos demais. Quem quer ''apenas'' morrer pode fazê-lo de diversas formas. Mas ao ''suicida midiático'' isto parece ''pouco''. Ele quer ''acertar as contas'' de preferência da maneira mais ruidosa e espetacular possível. Com platéia. Com direito a aparecer no ''You Tube''...Alguém, com certeza, deve ter antecipado este ''futuro'' em que vivemos. Alguém, com certeza, deve ter alertado para dias em que bandidos explodiriam Delegacias de Polícia. Em que os noticiários, mesmo na rede controlada pelos ''irmãos'' de uma igreja evangélica, mais pareceriam Teatros de Horrores. Aliás, neste canal ''espiritual'' parece que a ordem é mesmo mostrar os piores horrores, em novelas e noticiários, para que as pessoas se sintam estimuladas a encontrar algum ''alívio'' e ''segurança'' sob o teto da Igreja...O que poderia soar mais terrível do que um ''futuro'' como este? Nestas horas a gente quer mais é esquecer as ''previsões'' para um futuro quiçá ainda mais fatal que tudo isto. E, para isto, ao menos contamos com os filmes nos cinemas e TV's abertas e a cabo. Mas, por favor, não sugira que eu alugue uma fita de horror. Por ora estou cheio disto...
Ainda o celular...
Embora nunca tivesse possuído um aparelho celular, o uso do mesmo está se revelando muito mais fácil do que eu esperava. Sem precisar recorrer ao manual de instruções, já me vejo fotografando e fazendo muitas coisas- escolhendo papel de parede, etc. Até já ousei explicar á usuária de outro aparelho como o DELA funcionava...Devo isto à prática com o computador. O celular simplesmente imita algo com que estamos habituados na Internet: o uso de ícones para simbolizar funções. Então, simples como qualquer criança pode entender, basta clicar em uma câmera fotográfica para abrir o Menu de filmes( é, o meu até filma...)e fotos. Ontem até me animei a sair com ele, para tirar as minhas fotos pela cidade. Infelizmente, a bateria acabou pelo caminho, impedindo-me de tirar uma foto da Livraria Cultura do Conjunto Nacional...Tirar fotos é simples, e já está incorporado ao meu cotidiano de usuário de celular. Falta agora descobrir como TRANSFERIR as mesmas para o meu computador e, quiçá, para este blog. Este parece ser um longo caminho...Será?
Final de mais uma ''Onda Timão''
Nos últimos dias era possível sentir a eletricidade no ar. Em todos os lugares, mesmo, corintianos especulavam sobre uma possível ida para a Liberdadores da América- título que o clube jamais conquistou. Os mais animados, diziam inclusive estar reservando os ingressos para a ''final'' da Libertadores no ano que vem...E alardeavam ter ''40 milhões'' de torcedores, coisa que só o Flamengo, quiçá, pode alardear hoje em dia...Após o rebaixamento para a série B, e a não classificação para as finais do Paulistão, o Corínthians estava de volta, com toda força. Colunistas se precipitaram, fazendo um incrível paralelo entre o time do Parque São Jorge com o...Fluminense! Muitos diziam que o time estava jogando um futebol ''fantástico''. Eu dizia, cá com os meus botões, ''menos''. A campanha do ''timão'' não passou por nenhum adversário de peso, à exceção do sofrido Botafogo( logo após a perda de mais um título na final para o Flamengo...). Jogou com o São Caetano, um time da segundona. Enquanto isto, o Sport atropelou Internacional, Palmeiras(respectivamente campeões gaúcho e paulista), assim como o Vasco da Gama de Edmundo e cia. A euforia corintiana aumentou com o primeiro jogo da final da Copa do Brasil, quando o Sport equivocadamente jogou para empatar ou perder ''de pouco'', e quase botou tudo a perder. Foi salvo, após estar perdendo por 3 X O por um gol de Enílton no finalzinho. Ontem, na ''Ilha de Lost'' ou ''Bombonilha'', o Corínthians sentiu o quanto aquele golzinho fez diferença. Bastava ao Sport fazer 2 gols em casa, e não sofrer nenhum. O time pernambucano fez o seu papel, com folga. A equipe paulista só ''acordou'' e partiu para o jogo na segunda etapa, quando já estava perdendo por 2 gols de diferença. A inoperância de seu ataque, e do argentino Herrera, lembrou aquele grupo que foi rebaixado para a Série B no final do ano passado, e que era dirigido pelo mesmo Nelsinho Batista que hoje treina o Sport...A derrota foi inapelável. A festa ensaiada pela Fiel ''ficou para as cucuias''. Ontem, só quem comemorou gols em São Paulo foi a torcida...dos adversários do Corínthians. Timidamente, alguns foram para as janelas gritar contra os corintianos, ouvimos fogos e alguns buzinaços e só. Para nossa felicidade, além de ver um adversário cair inapelavelmente- pondo fim a uma perigosa ascensão- ainda tivemos uma das noites mais tranqüilas dos últimos tempos...O Corínthians não é, definitivamente, o Fluminense...
quarta-feira, 11 de junho de 2008
A escolha de Obama
O maior risco na escolha de Obama pelos democratas não é sequer o pouco que conhecemos sobre sua vida e suas propostas. É o fato de que Obama- um candidato que não tem adeptos , mas sim FÃS, na imprensa brasileira inclusive- tem um apoio muito maior fora que dentro dos Estados Unidos...O mundo inteiro se identifica com a origem simples do candidato, com sua imagem, porém as pesquisas norte-americanas mostram que sua diferença para McCain não passa da casa dos 5/6 pontos. Ou seja, internamente Obama ainda não ''decolou''. E o jogo sujo dos republicanos, que irão vasculhar os ''podres'' de Obama de modo ainda mais incisivo que os Clinton jamais poderiam imaginar, sequer começou de verdade...Nosso prognóstico é que esta será uma das eleições mais disputadas, e sujas, de todos os tempos. Será algo no estilo Kennedy X Nixon. Decidida por uns 2 pontos de diferença...A favor de Obama a juventude e a disposição para enfrentar os adversários em todos os estados, fato que o ajudou decisivamente a derrotar Hillary. Obama também não tem a imagem desgastada de um político profissional, o que o ajuda especialmente na hora de receber doações de milhões de eleitores- muitos dos quais já haviam desistido inclusive de votar nas viciadas eleições americanas. Enfim, escolhido candidato democrata Obama tem agora a nossa ''torcida''. O que não quer dizer que fecharemos os olhos para eventuais erros de campanha e de um virtual Governo Obama. O apoiamos por ser o candidato democrata que pode por fim aos desastrosos anos Bush. Deixemos aos jornalistas brasileiros, entre eles os Sérgios ( Augusto, do Estadão, e D'Ávila, da Folha)e o americano-''brasileiro'' Matthew Shirts, o papel de ''fãs'' incondicionais. E preparemo-nos para o ''tsunami'' que será a próxima eleição presidencial norte-americana...
terça-feira, 10 de junho de 2008
Incômoda prática: os ''chiqueirinhos'' nos estádios de futebol...
Claro que você quer mais que o outro time se dane mesmo. Que seja massacrado. Mas dentro de campo. O que está se generalizando, na acomodação das torcidas adversárias em estádios de futebol, vai além do mínimo de civilidade. Nós últimos 2 jogos do Corínthians na Copa do Brasil, em um estádio com capacidade para 70 mil pessoas como é o Morumbi, as torcidas adversárias- de Botafogo e Sport- foram ''agraciadas'' com cerca de...mil ingressos...Dizem que há uma tentativa de regulamentação por parte da CBF, e que as duas equipes acima referidas ''não comunicaram ao órgão superior do futebol brasileiro com 3 dias de antecedência'', etc. Conversa fiada! O torcedor das equipes visitantes é sempre maltratado nos estádios de futebol, e obrigado a ocupar os piores lugares. Sua presença é ''pro forma'', uma vez que é difícil quantificar quanto representam 1000 torcedores em 65 mil. Isto está se generalizando, e é aceito por todos como uma forma de ''evitar brigas entre torcedores de times rivais''. Assim, um Atletiba normal tem 30 mil torcedores do Coritiba, no Couto Pereira, contra 2 mil atleticanos. Um Figueirense X Avaí tem casa cheia de torcedores do Figueirense, e cerca de mil torcedores do Avaí- que mal conseguem se fazer notar( a não ser que o seu time ganhe...). No Parque Antártica, estádio do Palmeiras, as torcidas rivais são colocadas em um lugar fora do anel das arquibancadas. Não é nem atrás de um dos gols...Em nome da ''segurança'' ou do que quer que seja, generalizam-se os jogos ''de uma torcida só''. Apenas o Maracanã e o Mineirão, para falarmos dos grandes centros futebolísticos nacionais, comportam finais de campeonato com divisões equânimes de ingressos para as duas torcidas dos times finalistas. Toda esta prática dos ''chiqueirinhos'' me parece odiosa, fascista. Agora, na final da Copa do Brasil, uma das equipes praticantes desta conduta anti-desportiva vai colher o resultado do que plantou: jogará a segunda partida em Recife e, ''como de praxe'', receberá meros...2 mil ingressos...A maior torcida de São Paulo terá de contentar-se com 2 mil ingressos em uma decisão de campeonato...Este é o retrato de uma prática odiosa, disseminada por todos os lados. Não sei sequer se ''disciplinar'' a questão garantindo um mínimo de 10% dos ingressos para os visitantes significaria muita coisa. Tratar as ''visitas'' deste modo, em qualquer outro sentido que não seja o do futebol, ah, isto significa muita coisa...
Perto e longe do mar...
Quando menino, eu era viciado em mar. A ponto de passar horas dentro d'água, sem entender porque todos aqueles adultos se contentavam em apenas ficar na areia- tomando sol/conversando/lendo, etc. Eu nasci longe do mar, no Planalto Central, e por este motivo contava os dias e as horas para, enfim, poder voltar a ''pular'' as ondas, ''pegar jacaré'', construir os meus castelos na areia, caminhar por quilômetros à beira-mar, sem sequer pensar em cansaço. Hoje eu moro não à beira-mar, mas muito mais próximo do mesmo do que jamais em minha vida. Basta um pequeno ''pulo'' de cerca de uma hora- aumentada para pelo menos 5 horas nos feriados- para poder botar os meus pés na areia. No último fim-de-semana o convite apareceu e eu, para minha própria surpresa, rejeitei a idéia com veemência. Mesmo morando em São Paulo, o que para qualquer ser humano ''normal'' já seria pretexto para sonhar com uma mudança de ares, a idéia de passar um fim-de-semana inteiro à beira-mar me pareceu um ''desperdício''. Aqui eu tinha muito mais coisas ''interessantes'' a fazer.Um almoço gostoso aqui, outro filme legal ali, uma passadinha em uma livraria, lanche em um café, jantar em uma boa lanchonete... É, adulto eu estou ''dando as costas'' para o mar. Como todos aqueles adultos que, para meu horror, faziam isto quando eu era menino...Mesmo quando chega o final do ano, e eu faço meus programas à beira-mar, ou quando consigo dar uma ''escapadinha'' para visitar a Cidade Maravilhosa, mesmo lá o mar parece distante, ''inconquistável''. Lá, podendo me esbaldar, mergulhar, passar horas dentro d'água como fazia quando era menino, eu me junto a todos aqueles adultos que passeiam pelo calçadão das praias da Zona Sul. Até mesmo entro por aquelas ruas todas de Ipanema e do Leblon, em busca de outras atrações como Casas de Suco, Livrarias e Restaurantes, e acabo me contentando com a proximidade do mar, com aquele ventinho gostoso que compensa o fato de estarmos em uma cidade onde a temperatura média se aproxima dos 40 graus...No Rio, para surpresa dos meus conhecidos, eu não me queixo de calor...Mas o que estávamos falando é como alguém, que era ''viciado'' em entrar no mar, em tomar banho de mar, acaba virando mais um adulto para o qual o mar é mais uma ''vista'' qualquer- e que vista!- do que uma necessidade visceral. No que se refere ao mar isto é inegável: minha relação hoje em dia é muito mais de ''voyer'' do que de participante ativo...Nestas horas é de se indagar mesmo se toda a nossa ''grandeza''- todos os nossos aparelhos tecnológicos, automóveis, televisores, shopping centers, celulares- se tudo isto não está mesmo nos levando a uma loucura coletiva, a um estado de alucinação generalizado em que pensamos que somos maiores do que as ''pequenas'' coisas da natureza( como o sol, o mar, os pássaros cantando, os rios, etc.). Não somos...Neste último final-de-semana eu pude ir ao mar e não fui. Isto é mais do que uma ''pequena decisão''. Há muito mais implícito neste gesto do que eu possa imaginar. Melhor parar este ''post'' por aqui, porque tudo o mais que eu tentar explicar poderá ser utilizado contra mim mesmo...
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Melhores momentos de ''A Chinesa''
A musiquinha engraçada, como o refrão ''Mao, Mao''. A pilha de pequenos ''Livros Vermelhos'', de capa vermelha claro, espalhada no centro da sala. O ''teatro revolucionário'', em que eles simbolizaram a situação do Vietnã, à época: pequenos aviões davam voltas em torno de uma jovem que simbolizava aquela nação asiática, emquanto ela berrava por socorro( - ''socorro, messiê Kossiguin!"). A ''ginástica revolucionária'': ginástica mais slogans revolucionários a cada movimento...
domingo, 8 de junho de 2008
Ecos de 1968- ''A Chinesa''
Desde o início do ano a cidade de São Paulo vem sendo tomada por eventos relativos ao ano de 1968. O CCBB realizou uma mostra de filmes e exposição sobre Guy Debord. Estava prevista uma passeata pelo centro da cidade para finalizar a Mostra. Há umas duas semanas, estive no Sesc/Pompéia- que não conhecia ainda- para assistir uma Mostra sobre a Contracultura. Com direito a filmes sobre os ''Panteras Negras'' e os Weathermen ( organização terrorista norte-americana formada por ex-membros da SDS- Students for a Democratic Society- grupo que liderou os principais protestos contra a Guerra do Vietnã e as ocupações das principais Universidades naquela época ). Diante do método utilizado para destruir os Black Panthers, até entendo porque o Obama faz tanto questão de bancar o estilo ''certinho'': a Polícia descobria onde estavam os líderes, e metralhava a casa inteira. A versão oficial era que ''houve resistência''...Mas toda esta ''Onda 1968'' não chegou aos livros. Pode-se dizer, ao contrário, que não há um grande livro publicado no Brasil sobre Maio de 1968. As editoras ''requentaram'' o livro de Zuenir Ventura, publicaram um ou outro livro estrangeiro, mas a ''grande obra''- indispensável- não deu as caras por aqui. ''Sociedade do Espetáculo'', de Guy Debord, ajuda a entender aquela época, mas não é específico sobre os acontecimentos de Maio na França. Aliás, para que alguém possa dizer que ''participou ativamente'' do Maio de 68, aqui ou lá fora, deve ter hoje em dia pelo menos 60 anos...Não é o meu caso. O ''meu Maio de 68'' eu curti por alguns livros. Há um especial, pequeno, se não me engano de Olgária Matos, da Editora Brasiliense, legal por mostrar vários dos ''slogans'' da época. Mas não ter vivido algo nunca nos impediu de desfrutar esta coisa. A esquerda marxista até hoje enche a boca para falar da Revolução Russa de 1917. Os ''beatniks'' até hoje são ''hot'', tantos anos após a morte de Jack Kerouac...Enfim, na busca por algo que me desse uma boa visão da época, de 1968, eu cruzei ontem a cidade. Estava passando um filme de Godard na Cinemateca, na Vila Mariana. Mas eu almocei em Higienópolis, indo depois para a região da Pompéia. O que me obrigou a pegar um metrô na Barra Funda, passando pela estação da Sé, e depois indo para a Vila Mariana- coisa de uns 40 minutos. O filme iria passar às 6 da tarde de sábado, grátis, em uma mostra de filmes sobre 68. Eu já havia assistido ''A Chinesa'' antes, há cerca de 15 ou 20 anos, na Cultura Inglesa de Brasília. Lembrava-me apenas das imagens fortes, com muito vermelho. Impactante, visualmente falando. Mas, qual não foi a minha surpresa ao constatar que a obra- que eu desejava ardentemente adquirir em DVD- está inevitavelmente DATADA. Como é maçante assistir todos aqueles personagens brandindo ''slogans'' revolucionários em uma comuna maoísta no ano de 67. O filme, que eu ligava aos acontecimentos de Maio de 1968, é, na verdade, o ''Anti-Maio'': não há ação, os personagens assistem aulas chatíssimas de marxismo-leninismo, ''A Internacional'' toca o tempo todo para eles, até na hora de dormir, as relações internas acabam sendo o elemento de maior dinamismo da obra. É nelas que vamos percebendo que algo está errado, está se fragmentando. Há a cena cômica de uma garota que dá o ''fora'' no namorado inesperadamente, colocando uma música ao fundo(para mostrar que é possível ''fazer duas coisas ao mesmo tempo''!!???), um membro que manifesta simpatia pelo ''reformista'' Partido Comunista Francês( PCF)- justamente o maior inimigo dos membros da ''Comuna''...um racha na hora de implementar uma linha pró- Luta Armada. O irônico de tudo isto é que, enquanto os estudantes e intelectuais franceses se abriam para as idéias e propostas de Mao, na China o próprio Mao- em luta contra a posição majoritária do Comitê Central do Partido Comunista Chinês- se apoiava nos jovens ''Guardas Vermelhos'' para triunfar. E o que faziam estes jovens ''braços armados'' do Maoísmo? O mesmo que foi feito depois no Camboja e no Vietnã: invasão de Universidades e tortura de professores e intelectuais, e envio dos mais recalcitrantes para ''campos de reeducação'' bem distantes. Uma jovem personagem de ''A Chinesa'' compara hotéis do ''Club Mediterranée'' aos campos de concentração nazistas da Segunda Guerra. E prega, pasmem, que se atire bombas sobre a Sorbonne e outras Faculdades francesas! Enfim, é tudo muito verborrágico- bem ao estilo francês, e da esquerda em geral. Fala-se muito, mas fazer, que é bom, nada. Bom retrato de uma época, e talvez de alguns grupos que participaram de Maio de 68, mas DATADO. E maçante. Interrompido umas 3 vezes para trocar o rolo de filme...Em uma destas interrupções, duas sortudas espectadoras de mais idade ''aproveitaram'' o momento para dar uma ''escapada'' daquilo...O filme é imprescindível para jovens aspirantes a cineasta, e talvez a platéia fosse composta em sua maioria por pessoas desta categoria. A reação à obra foi pífia: uma risadinha aqui e ali, sem empolgação ou aplausos ao final. Não foi desta vez, nem nos longos ''Amantes Constantes'' e outros filmes que procuraram retratar aquela época, que se fez um bom balanço de Maio de 68. Talvez nunca seja feito: ao contrário das demais ''revoluções'', a de 1968 é uma obra em aberto- e continua, como nunca, a influenciar a nossa época. Mesmo que seja por antítese...
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Grazi
Nunca achei a menor graça nos programas do estilo do ''Big Brother''. Não vejo a menor graça em ver pessoas comuns, que SABEM que estão sendo filmadas. Talvez seja oriunda desta minha antipatia a atitude que tomei em relação à figura de Grazi Massafera. Enquanto todos louvavam a beleza e o talento desta jovem paranaense, eu ficava incrédulo e, pior, ainda manifestava em público o meu ceticismo- o que me garantiu calorosas discussões em público com suas fãs...Para mim a moça não era diferente destas pretensiosas vendedoras de butique ou lojas de grife. Era bonitinha, como são bonitinhas várias secretárias ou atendentes de consultório ( nada contra estas nobres profissões: o que quero ressaltar é que a beleza feminina, no Brasil, é algo abundante; para se destacar, nesta área, tem de ser acima da média...). Continuo achando isto. Porém, à medida em que passei a ver a imagem de Grazi na TV, em anúncios, em revistas, confesso que a minha atração pela figura foi crescendo. E muito. Famosa, o que era comum passou a colonizar os meus pensamentos. Hoje admito que, se a visse passando pela rua, certamente eu iria parar para admirá-la. E não só: assistindo ontem à noite ao programa ''Casos e Acasos'', na TV Globo, eu fiquei igualmente pasmo e indignado, como a imensa maioria dos telespectadores do sexo masculino deve ter ficado, com o personagem que, fazendo um favor a um amigo, abriga a Grazi ( o nome da personagem dela também era este...que engraçado...)em seu apartamento e não tenta nada. A moça o tempo todo soprando no ouvido do cara que eu e o fulano ''somos apenas amigos'', ela pedindo para se secar da chuva que faz lá fora, a luz que cai providencialmente, e o sujeito ali se mordendo para não atacar a menina...Depois, na manhã seguinte, o próprio amigo pergunta por que diabos o cara não ''caiu matando''...O amigo já estava com outra... A conclusão deste post é que, assistindo esta estória, eu também estava- como todo mundo- ''babando'' ao ver a sombra da Grazi tomando banho. O comum, ''famoso'', torna-se belo e atraente. Mesmo sem ter jamais assistido o ''Big Brother'', e nem pretendendo fazê-lo em um futuro próximo, a minha nova reação à figura da Grazi já mostra porque estes programas fazem tanto sucesso...
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Vitória Maiúscula e merecida, com ''cara de campeão''
O placar até engana- 3 X 1- mas o jogo foi uma BATALHA. Apesar de ter vários jogadores habilidosos- Dodô, Washington, Conca, Thiago Neves, Thiago Silva, Gabriel- o Fluminense caracterizou-se, nesta disputa da Libertadores, por sua flexibilidade, e por jamais ''baixar a cabeça'' para os adversários, mesmo após sofrer um gol. Foi assim contra o São Paulo, o confronto de duas escolas. Um futebol com resquícios do ''futebol-arte'', ofensivo, com dois alas bem abertos, com vários craques, contra um time competitivo e batalhador, com espírito de equipe. O Fluminense, contra todas as expectativas, passou merecidamente pelo São Paulo. Agora, contra o Boca, o adversário foi ainda mais ''encardido''. O Boca não bate. Os dois jogos, aqui e em Buenos Aires, tiveram pouquíssimas faltas. Mas luta o tempo inteiro. Ontem, em pleno Maracanã, praticamente só deu Boca Juniors no primeiro tempo. O Fluminense parecia jogar pelo resultado que o favorecia- empate por O X 0 ou 1 X 1. Diversos jogadores tricolores admitiram, ao descer para os vestiários, que o time precisava ''jogar mais bola'' para vencer. E emoções, além de futebol, não faltaram no segundo tempo. O Boca ''colaborou'' para acordar o time do Fluminense. Fez o primeiro gol. E, tal como nos jogos contra o São Paulo e contra o Boca em Buenos Aires, o Fluminense não se entregou e fez um gol logo a seguir. Washington, de falta. Pressão total do Boca. O Flu encolhe. Então, como em um passe de mágica, e uma prova de que a sorte costuma favorecer os campeões, Conca chuta uma bola despretensiosa. A bola bate em um defensor argentino, e é o segundo gol do Fluminense. Desde o início, o jogo é raçudo. Os dois times dão tudo pela vitória. O resultado é imprevisível. O clima é de tensão, eletricidade. Até que ele entra, e decide mais um jogo. O ''artilheiro dos gols bonitos'': Dodô. A graça do futebol é que nem sempre o melhor vence. É nisto que se fiam os times mais fracos: um golpe de sorte aqui e ali, e a ''zebrinha'' pinta outra vez na área...Porém, e este é o lado mais belo do nobre esporte bretão, há dias em que o vencedor é, de fato, a melhor equipe. A que tem a melhor campanha, o conjunto mais forte, mais harmônico, mais centrado, os melhores jogadores, e ainda jogando em casa para uma multidão de 80 mil pessoas. Que empatou na casa do adversário e, em casa, venceu pelo largo placar de 3 X 1 ( coincidentemente, o mesmo placar da vitória sobre o tricolor paulista...)A noite é do Flu, o time que os argentinos ''não conheciam'', ou fingiam desconhecer. Agora nem na Libertadores, após 43 anos de ''freguesia'' dos times brasileiros, os ''hermanos'' prevalecem mais. As palavras finais são de Renato Gaúcho: ''Prazer. Este é o Fluminense''...
Estórias...
(...)''No outro dia eu estava vendo um desenho animado. Snoopy está dançando, realmente enlouquecendo, totalmente feliz, em samádi. E a Lucy olha para ele e diz: ''Pare com isto! Pare com isto! O mundo está em grande miséria. Você não pode ver que as pessoas estão sofrendo? Como você pode estar tão contente quando o mundo está em tal inferno?'' Há uma grande condenação nos olhos dela. Por um segundo, até o Snoopy para. E a Lucy diz: ''Você não está ciente, seu estúpido? Você não está ciente do que está acontecendo no mundo? É este o momento de dançar de um jeito tão completo e estúpido?" Snoopy diz: ''Mas minhas pernas estão se sentindo muito, muito felizes, e eu estou realmente desfrutando a dança. E agradeço a Deus por ser alguém tão ignorante''. E começa a dançar novamente(...)''. ( Extraído de ''A Revolução: Conversas sobre Kabir'', de Osho/Rajneesh) Outra estória, do mesmo livro: ''Havia um escritor que submeteu ao Reader's Digest ( a nossa Seleções )uma estória intitulada: ''O dia em que conheci um urso pardo nos grandes bosques do norte''. ''A estória é boa'', disseram os editores da revista, ''mas o título precisa de mais animação''. Então o escritor tentou novamente. Dessa vez ele intitulou a estória: ''Como minha vida mudou no dia em que conheci um urso pardo nos grandes bosques do norte''. ''Você está na trilha certa'', disseram os editores. ''Tente de novo''. O escritor, exasperado, escreveu então: ''Como encontrei Deus no dia em que conheci um urso pardo nos grandes bosques do norte''. Mas os editores ainda não estavam satisfeitos e a estória permaneceu inédita até que o escritor, algumas semanas depois, submeteu-a novamente sob o título: ''O dia em que transei com um urso pardo e encontrei Deus nos grandes bosques do norte''...
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Do Eu ( ''doeu''?)
Não há nada mais egocêntrico do que uma pessoa realizadora. Ela não se escuda atrás de desculpas, ou do comportamento dos outros. Para ela, explicando a sua trajetória de sucesso, tudo é ''eu''. ''Eu fiz assim, eu fiz assado''. Todos nós nascemos com um ego gigantesco. Nada mais egocêntrico do que aquela ''doce e inocente'' criancinha, que inferniza dia e noite os seus pais em busca de atenção. Veja se ela está ''preocupada'' com o bem-estar e com os interesses de seus genitores...Ela quer ser amada, bem tratada, atendida como um senhor. As crianças de hoje, em especial nos lares de classe média para cima, ORDENAM mesmo. Elas DITAM o que querem e, caso seus pais caiam na armadilha da negação, elas CHORAM e BERRAM em público- que é onde nós nos sentimos mais constrangidos...O ''tratamento'' para o nosso egocentrismo é bem conhecido: ouvimos durante anos, da infância à adolescência, milhares de ''NÃOS''. Se o ''massacre'' for bem-sucedido, nos tornaremos adultos sem força. ''Bem-educados'', ''bonzinhos'', o orgulho da mamãe, do papai, da titia, dos avós. Em suma, neuróticos. E seremos bons criadores de novos escravos: mesmo tendo jurado que não imitaríamos jamais nossos pais, subitamente estaremos duelando com nossos filhos, berrando intermináveis ''nãos'' e suas diversas justificativas: ''não é o momento'', ''não é adequado'', ''não quero que você faça isto'', ''isto não é coisa que um bom filho/a faça''. A estória dos fracos, das pessoas enfraquecidas em seus egos, é uma estória de rancor. Do EU bem grande de nossas infâncias passamos para o ELES proferido com raiva. ''Porque ELES não estão preocupados com o interesse do povo'', ''porque ELES são todos uns corruptos e safados''. Quem diz ''ELES'' ao invés de ''EU'' é fraco: da voz ativa da infância passamos todos para a voz passiva da irresponsabilidade coletiva. ''EU FAÇO'', ''EU DECIDI'', ''EU QUERO'' é forte, indica vontade própria. ''ELES'' não querem saber de nada é a tentativa de atribuir a um terceiro, mais forte que nós, a decisão sobre o nosso destino. Passando para o ''ELES'', para o universo da Culpa, da mágoa, do ressentimento, nós praticamente abandonamos aquele ''EU'' tão forte da nossa infância. Tudo vira ''culpa'' dos outros. Dos pais, dos vizinhos, dos políticos, do marido/esposa, dos filhos, do patrão, do Universo, até mesmo de Deus...O aprender, na nossa maturidade, acaba tendo de ser um processo oposto: das certezas que ''nos foram impostas''( ou melhor, na voz ativa: as certezas que ''nós permitimos que entrassem em nossas consciências...'')temos de nos livrar, em um processo contínuo de esvaziamento. Esvaziamos os ''outros'' e reforçamos gradualmente aquele velho ''euzinho'' de nossas infâncias, já tão esquecido. Um EU amadurecido, que já não necessita da colaboração dos demais para ser feliz nem para satisfazer as próprias necessidades. E aí, contando as nossas próprias estórias, a nossa trajetória de vida, diremos com um ar de travessura: ''EU queria isto, aquilo, aquela/aquele e FUI ATRÁS, arcando com todas as conseqüências''. ''Sofri muito, mas EU CONSEGUI- ou não consegui, mas eu tentei, EU FIZ tudo o que podia, estava ao meu alcance''. Só nós somos responsáveis, no final de contas, por nossas vidas. Já é um peso muito grande carregar a responsabilidade por nossa própria existência- que dirá se quisermos colocar a dos demais sobre os nossos ombros já tão calejados...Se todos nós estivéssemos ocupados em progredir e melhorar em todos os aspectos, como TAREFA PRINCIPAL de nossas vidas, isto já seria muita coisa, muita mesmo...Quem não quiser assim, que tome conta ''deles''...
Sexo ou Futebol?
O brasileiro é apaixonado por futebol, e não é de hoje. O futebol, para os homens em sua quase totalidade, é muito mais do que um esporte. Ele define a nossa identidade. Pegue uma segunda-feira após um clássico local. Pela cidade inteira ouvimos um constante ''zun-zun-zun'' sobre a peleja. Nos bares, no transporte público, nos escritórios, na portaria dos edifícios, nas bancas de jornal, nas obras, todos estão comentando sobre a partida. Vá a um estádio, e você terá uma forma de identidade. A sua identidade é dada pelo grupo. Em uma multidão de torcedores do seu time você se sente acolhido, seguro, ( salvo se for entre flamenguistas, que já vi brigarem entre si...). Fora dali, nas rodinhas, o seu time é a sua identidade- ele te individualiza, personifica. Na portaria do meu prédio, eu sou o ''são-paulino''. Nós todos nos conhecemos pelos nomes. Mas a graça é chamar o outro de ''botafoguense'', ''palmeirense'', ''corintiano''. Na minha banca de jornal predileta também sou conhecido como ''são-paulino''. Há um funcionário palmeirense, outro são-paulino, e o dono é santista. Ele acha graça quando digo que ''não basta que o meu time ganhe: é preciso, para que minha alegria seja completa, que o Corínthians perca também...'' Não basta mesmo torcer só pelo nosso time: no último jogo do Corínthians contra o Botafogo ouvi um grande coro de ''goooool'' nas imediações de meu apartamento na hora do gol do Botafogo. Claro que o Botafogo não tem uma torcida significativa em São Paulo: aquele era o somatório das vozes de santistas, palmeirenses e são-paulinos- inclusive este que vos fala- todos ''secando'' a imensa nação corintiana. Na hora do gol ''deles'' também foi uma festa só, mas apenas dos corintianos...Os adversários também ''secaram'' o São Paulo contra o Fluminense e, em plena meia-noite de quarta para quinta-feira, ouvia-se os rojões dos adversários dos tricolores paulistas festejando alegremente a vitória do Tricolor das Laranjeiras...Como estamos vendo, o futebol não é apenas um esporte qualquer no Brasil. Ele é a nossa vida, a razão de nossas existências, de boa parte de nossas alegrias e tristezas. Em função disto é que passo a analisar a pesquisa que apontou que, para os britânicos, futebol é mais importante que sexo. Antes que alguém diga que ''estes ingleses não são de nada mesmo, e as próprias mulheres inglesas disseram que para elas o sexo estava em SÉTIMO LUGAR após chocolate e várias outras coisas'', vejam bem: a resposta padrão, ''normal'' para uma pergunta como esta é ''claro que o sexo vem em primeiro lugar''. Eu ''nunca iria trocar uma noitada com uma gata para ver um bando de marmanjos em trajes minúsculos correndo atrás de uma bola''. Você, ao pensar em responder algo do gênero, já está ''jogando para a platéia''. Quer dar uma de ''macho'', dizer- como todo bom dependente- que ''quando eu quiser parar eu posso''. A resposta normal é esta mesmo, você está coberto de razão. Mas a vida não nos coloca em situações ''normais'' e ''confortáveis''. Vamos complicar a pergunta: digamos que seja uma final de campeonato estadual( um Atletiba, um Flaflu, um Inter X Grêmio, um Atlético X Cruzeiro), e que o SEU time esteja disputando esta final. Complicado, não? Vamos apertar. Já que o Brasileirão, pelo sistema de pontos corridos, não tem mais uma ''final'' como as de antigamente, pensemos então na Libertadores. Você torce para o Fluminense. Justamente HOJE À NOITE, dia da grande partida da semi-final contra o Boca Juniors, e na HORA DO JOGO, a Juliana Paes( ou a Giselle Bündchen, ou a Ana Paula Arósio, ou a sua vizinha, secretária ou mesmo a sua namorada- dependendo de como anda o namoro...) resolve dar uma ''incerta'' na sua casa...Mesmo que você responda ''claro que eu vou ficar com a mulher, f...o jogo'', tenho a certeza quase absoluta que, na hora H, você estará pensando no jogo! Você lá, no meio da transa, ouvindo os gritos de ''nense'' ( fosse outro o jogo, ''mengo'', ''vasco'', ''São Paulo'', etc.): hája concentração para continuar até o final. Louvo a sua força de vontade se você, na sua resposta, disser que vai até o fim. Larga a final do estadual, da Libertadores, do Mundial em Yokohama em prol de uma ''rapidinha''...Toda pergunta merece uma resposta contextualizada. ''Depende'' diriam os profissionais do Direito, com toda razão. Se você for sincero constatará que, em determinadas ocasiões, até mesmo o sexo perderá para um bom jogo de futebol. Pois, para quem gosta, uma partida de futebol nunca é APENAS uma partida de futebol. Ela influenciará o seu humor durante a semana inteira de um modo tão completo que talvez nem uma boa transa consiga ser páreo. Se você não filmar o sexo, terá de se fiar apenas no valor de sua palavra que, convenhamos, neste quesito não é dos maiores. Todos tendemos a exagerar nesta área... Mas, gravando ou não gravando o jogo, caso o seu time seja vencedor, no dia seguinte- ao vestir o ''manto sagrado'' do seu clube- você será o REI. Seus conhecidos ou não que torcem para os rivais estarão todos se mordendo de inveja e rancor...Vale trocar este sentimento por uma noite de sexo? Aliás, alguém em sãs condições ousaria comparar estes dois prazeres tão grandes? Isto só poderia mesmo dar uma boa piada, uma pesquisa e um texto no blog...
domingo, 1 de junho de 2008
''Seca''
Passei os últimos dias em silêncio, ao menos aqui. Tudo o que me vinha à mente referia-se ao mundo ''fático'', dito ''real''. Já explicitei, neste blog, que nossa função aqui vai além do mero comentário de acontecimentos. Para isto, para despejar milhões de ocorrências sem nexo entre si a todo instante, contamos com a imprensa. A imprensa tem os seus comentaristas, e eles ''douram a pílula'', amenizam a triste sensação que temos ao lidar com tantas desgraças do cotidiano, ''relêem'' alguns destes fatos à sua maneira, ou não. EU ESTOU EM GUERRA COM O ''REAL''. Há alguns dias escrevi diversos textos sobre o mundo das réplicas, a realidade ''fake'', Eis uma faceta da realidade ''espetacular''. O outro lado, por incrível que pareça, chama-se ''notícia'', ''fato''. Uma pessoa, sem dinheiro para pagar o pedágio, decide voltar na CONTRAMÃO pela movimentada rodovia dos Imigrantes. Eu li isto no jornal, e comentei com o porteiro do prédio. - ''Você não sabia disto?'', ele me pergunta- triunfante. - ''Deu na TV ontem à noite''...A brincadeira com o ''factual'' não é mais exclusividade das camadas médias, leitoras de jornal. Na realidade espetacular, midiática, todos tem a ilusão de estar bem informados. A todo instante alguém comenta sobre o caso Isabella, sobre o terremoto da China. Motoristas de táxi, ano passado, por volta da queda do avião da TAM em Congonhas, transformaram-se em legistas e comentaristas. Todos tinham uma OPINIÃO formada sobre o assunto. Eis porque o mundo ''factual'' é tão perigoso. Os fatos dão lugar a opiniões superficiais sobre qualquer tema. A realidade submerge, reduz-se, encolhe ante a verborragia onipresente e triunfante. É tão impossível escapar dos tentáculos do ''real'' imperante e total quanto é impossível escapar dos ruídos de buzinas e celulares( breve teremos de suportá-los até mesmo durante as viagens de avião! ). No entanto mesmo a nós, leitores treinados e escolados há muito de jornal, esta infinitude de fatos dispersos acaba enganando por vezes. Para não submergir, teríamos de arquivar estes fatos em uma pasta especial, a que recorreríamos em caso de ocorrências semelhantes. Só a nossa memória não é suficiente. CASO fossemos capazes de ler toda esta ''realidade'' que nos circunda e coloniza, entenderíamos que o atraso do metrô foi causado por alguém que se jogou sobre os trilhos. Um outro cidadão seguiu pela contramão de uma movimentada rodovia no início do ano, e colidiu contra um outro veículo- vindo a falecer...Uma outra pessoa seguiu na contramão da Avenida 23 de Maio há poucos dias, felizmente de madrugada, e foi detida pela Polícia. Assim, também, iríamos coletando os fatos referentes a ocorrências com motoristas alcoolizados. Mataram uma família inteira aqui, uma criança ali, aleijaram uma pessoa aqui, deceparam a cabeça ou os braços de outro ali...O mundo ''fático'' cheira a morte. Nos tornaríamos, nesta atividade coletora de ''fatos'', pouco mais do que legistas do IML, dissecando cadáveres após cadáveres...(''Fake'' mais ''real/fato'' é igual a MORTE, que é igual a Espetáculo)...No entanto, iludidos que estaríamos na busca de sentido para todos estes ''fatos'', ainda assim não poderíamos coletar muito mais do que uma FRAÇÃO da realidade existente. É tal a sua complexidade, que acreditamos que uma pessoa que pudesse ver TUDO o que ocorre em uma cidade como São Paulo enlouqueceria. É muita dor concentrada... Que dirá alguém capaz de enxergar tudo o que ocorre no Brasil? Ou no mundo? Este ser não existe, ao menos em forma humana...Para não sucumbirmos ante a grandeza e magnitude do real é que somos dotados de idéias, pensamentos. Nossas idéias sobre o que ocorre agem como ''filtros'', eliminando fatos contrários e selecionando fatos que reforcem a nossa visão de mundo. Por isto, mesmo que nos iludamos cada vez mais em nossa atividade frenética de ''caçadores do real'', o mundo dos acontecimentos do codidiano é, de fato, um mundo IDEOLÓGICO/IDEAL/MENTAL. Houvesse apenas um ''real''- e todos seríamos capazes de fazer a mesma leitura do que ''existe'', não é? No entanto, o que vemos não é isto. Ao triunfo do ''real'', segue-se uma fragmentação no plano mental. Unidos pela Globalização, pela ''Informação'', nunca parecemos tão divididos quanto à leitura do que está acontecendo. O ''factual''/''real'' de oportunidade transforma-se em risco. Quando todos parecemos bem informados sobre o que está acontecendo, quando as coisas parecem bem ''concretas'' a ponto de qualquer um poder fazer a sua leitura, ''facilitada'' por uma imagem qualquer do que ocorre, tudo isto acaba reforçando a nossa ''certeza''. Ou seja, o ''real'' acaba transformando-se em mero instrumento das nossas convicções. Voltamos, por vias tortas, ao Dogmatismo...Claro que não estamos de algo acabado. Eis uma potencialidade, uma leitura do ''mundo fático'' tão ou mais tendenciosa que as demais. E a análise do mundo ''real'' acaba tornando-se mais uma oportunidade de não sucumbir a ele. Entendendo-o, dissecando-o, sem falar especificamente de nenhum fato ''concreto'', ''real'' ocorrido nos últimos dias. Isto não é ''blá, blá, blá''. Isto é blog...
terça-feira, 27 de maio de 2008
Palavras, e seus significados...
Se alguém me convida para cear em sua casa, e logo após a refeição pergunta o que achei, saio-me com esta: - ''esta refeição é única''. E não estou mentindo. TUDO é único, peculiar, sem igual. Agora, há ''únicos'' e ''sem iguais'' bons, e outros nem tanto. Uma transa pode ser ''peculiar'', ''excêntrica'' ( termo caro aos ingleses)e ser uma droga. ''Que tal, meu bem''?, ela pergunta. ''Você é única meu amor''. E bota ''única'' nisto. De repente ela saca um chicote e te dá umas vergastadas no traseiro, ou pede que você bata nela, ou morda- e bem forte...Isto é ou não é bem ''peculiar'', ''único''? Tão ''único'' que você anota o número do telefone dela e diz ''eu te ligo''( bem, isto não é tão original...mesmo sendo loira, esta ela pode entender...). Outra palavra interessante é ''satisfeito''. Os garçons, ao recolher os pratos, costumam perguntar sempre se estamos ''satisfeitos''. Quando o serviço e a comida excederam minhas expectativas, em um padrão de excelência que espero sempre que vou a um restaurante, replico que ''não, não estou satisfeito''. O garçom fica surpreso, e eu finalizo com esta: ''estou mais do que satisfeito''. A comida estava excelente, etc., e não economizo nos elogios. Não acredito- como algumas pessoas fazem, no relato do garçom- que ''não podemos elogiar alguém porque ele/ela pode ficar muito convencido/a e baixar o nível do que faz''. Ao contrário: os seres humanos são movidos muito mais por elogios que por broncas ou ceticismo, ou mesmo por agrados financeiros( se bem que não dispenso isto quando sou bem atendido...). Um elogio sincero, e aquela pessoa estará ''fisgada''- e demonstrará o seu agrado da próxima vez que você for àquele lugar. Infelizmente, no nosso mundo os elogios são mais raros que as gorjetas. Bem mais raros. Estar ''satisfeito'', para usar o linguajar dos garçons, é algo que não me faz querer repetir algo. ''Satisfeito, para mim, não satisfaz''...''Satisfatório'' lembra aquela nota mínima para a aprovação na escola. A média era 6, passamos com 6,1- raspando. ''Satisfatório'' para todo mundo: nossos pais não cortavam nossa mesada e podíamos viajar no final do ano, enquanto os coleguinhas da turma ficavam de ''recuperação'' ( como o Corínthians na série B do Brasileirão...). ''Satisfatório'' lembra ''regular''- que é a nota mais atribuída pelos brasileiros a qualquer governo. ''Satisfatório'' lembra mediano. E, por que nos daríamos ao trabalho de muitas vezes cruzar a cidade para ter uma experiência mediana? Com 12500 restaurantes, boa parte deles patinando nesta categoria média, o que nos faria escolher este ou aquele? O diferencial é a excelência. Precisa ser, no mínimo, muito bom para querermos repetir. Seja o restaurante, a pessoa, a cidade, a loja, o livro, o blog, etc. O excesso de oferta faz com que fiquemos cada vez mais exigentes, ''luxentos''- para usar o termo que ouvi de alguém esta semana...
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Citações...
''O mundo está repleto de renúncias e aprendizagens e essa é a tua: deves passar por tolo e grosseiro durante um longo período''.
RALPH WALDO EMERSON, ''The poet''
Speed Racer
Como vocês puderam perceber, o tema ''Realidade X Fantasia'' nos interessa. Já foi objeto de diversos posts aqui. Caminhamos a passos largos para a abolição das fronteiras entre as duas coisas, se é que já não chegamos lá...No mundo dos filmes, é cada vez mais difícil distinguir o que é uma coisa ou outra. Vejamos este muito bem produzido, e belo, filme- ''Speed Racer'' - que tivemos o prazer de assistir ontem em meio a uma platéia repleta de crianças. Apesar de contar com atores de carne e osso, alguns de primeira qualidade, temos a clara sensação de que boa parte daquilo foi resultado de trucagens de estúdio. É tudo muito belo, colorido, os carros voam, fazem acrobacias, duelam entre si, parecemos transcender- por instantes- a divisa entre a vida e a morte. Tudo não passa, de fato, de um desenho. Um desenho com personagens de carne e osso. Nos desenhos não há dor. Não há morte- esta fica subentendida. Não se pode sequer acusar o filme de ''abusar dos efeitos especiais''. Há uma estória. Há uma denúncia- por incrível que pareça comum nos filmes de Hollywood- do papel nefasto das corporações. Hollywood criou ''Matrix''( pelas mãos dos mesmos produtores de ''Speed Racer''), criou ''V de Vingança'' ( um inusitado terrorista ''pela liberdade'' que chega mesmo a explodir o Parlamento Britânico). Enfim, o filme/desenho tem idéias, não desagrada os adultos. São as crianças que, nos momentos de diálogos que esclarecem pontos da estória, demonstram um certo aborrecimento( talvez porque eu tenha assistido o mesmo em cópia legendada)e começam a conversar entre si ou com os pais. Isto não dura muito. O filme é repleto de corridas, e muita ação. O que queremos enfatizar aqui é que na cabeça das crianças, e de muitos adultos, a distinção entre ''mundo material'' e ''mundo/fantasia'' é cada vez mais tênue. Não veremos muitos protestos diante desta nova tendência: os atores ''reais'' serão cada vez mais COADJUVANTES nos novos filmes. Não veremos estes protestos, porque poucos estão se dando conta de que a fronteira está sendo transposta...E nem há muito porque protestar mesmo. Estamos todos aprendendo coletivamente, por meio da Internet e dos filmes, que somos muito mais do que os nossos corpos. O MUNDO É MENTAL, É FANTASIA. Fosse ''real'', e haveria uma só forma de lê-lo, compreendê-lo. Perdemos muito tempo em busca disto. Na verdade, a consciência de que os nossos pensamentos são NOSSOS- e não um ''retrato fiel e acabado da realidade''- é o ponto de partida para superarmos todos os dogmatismos e fanatismos. Voltando os nossos olhares para as armadilhas que estão dentro de nós, e que nós mesmos criamos, talvez, enfim, possamos nos dar conta que- COMO SE FAZ COM AS FANTASIAS DE CARNAVAL- somos capazes de trocar as nossas fantasias mentais. Substituí-las ao nosso bel prazer. O processo será mais dolorido quanto mais pensarmos nos acontecimentos como ''reais''. A internet, os meios de comunicação, tudo isto exerce no momento o papel de uma gigantesca caixa de repercussão das ''mazelas'', das ''dores'' globais. Muitos lastimam, choram, reclamam, e há uma gigantesca platéia disposta a escutá-los. Muitos apreciam esta exposição de feridas e horrores ''em praça pública''( hoje esta ''praça'' é a internet...). Prefiro compreender este processo todo. Às vezes uma bela ''fantasia'' como o filme ''Speed Racer'' é capaz de desencadear toda uma reflexão sobre o mundo ''real''. Afinal, tal como o herói da estória- que tenta compreender qual o sentido de correr- nós todos estamos tentando entender o sentido de viver...''Go, Speedy, go!"
sábado, 24 de maio de 2008
São Paulo e sua incrível capacidade de replicar coisas...
Não preciso nem ir muito longe para comprovar isto. A alguns metros de onde moro foi inaugurado um novo restaurante de frutos do mar. O nome- Saint Tropez- lembra a Europa. Mas a decoração do restaurante, e os pratos servidos, fazem-nos pensar que estamos na Bahia. Em uma pequena cidade baiana...Dentro há palmeiras, a decoração( com luminárias antigas, parede com pedras, muita luz natural). E os pratos? Apesar dos nomes em francês- será alguma conexão com países da América Central?- como ''bouillabaise'' ou ''baiannaise'', este último( um de meus favoritos)é simplesmente uma nova versão da tradicional moqueca baiana. É leve, apetitoso, leva bastante leite de côco. O dono do lugar é especialista na criação de ambientes. Tem um que nos remete ao mediterrâneo de influência árabe. O outro lembra um café parisiense, daí o próprio nome: Paris. Mas São Paulo, como nenhuma outra cidade, tem esta capacidade de mimetizar, de reestilizar coisas conhecidas de outros lugares com um toque paulistano- em especial na qualidade do serviço e na receptividade. Há um número infinito de botecos ''estilo carioca'', o que só comprova que o Rio de Janeiro é uma das obsessões do imaginário paulistano, bem como restaurantes que servem parrilla argentina. Por tudo isto, podemos dizer sem sombra de dúvidas que é uma cidade em que, por si só, por conter o mundo inteiro em si, sentimos muito menos vontade de viajar que em outros lugares. Necessidade alhures, aqui a viagem- esta para fora, para outros lugares- é uma opção. Redundância falar em ''viajar para fora''? Não, quando se conhece São Paulo- um lugar onde também é possível ''viajar para dentro''...E com a mesma sensação de descoberta...
sexta-feira, 23 de maio de 2008
O que buscamos
Há alguns anos esta seria uma página de manifestos. Minha mente funcionava desta forma áquela época. Hoje ainda há diversos manifestos aqui, mas ao menos eu me policio para reeducar o próprio olhar. Explico-me. Há uma maneira de abordar a realidade que eu chamo de ''queixosa'': descreve-se um fenômeno meio que lamentando o fato de as coisas serem daquele modo. O ''queixoso''/''lamentoso'' está em eterna briga com os fatos. Também batizo este comportamento de ''crítico''. Ontem, em pleno feriado, fiquei atento para contar quantas vezes estas práticas se infiltram em nossas conversas do cotidiano. A cada vez que identificava o pensamento, dito por mim ou por outra pessoa, eu interrompia o papo para dizer : ''crítica''...Uma simples conversa comum, na hora do almoço, rende cerca de 5 a 6 comentários ''críticos'', conforme a duração da refeição...Imaginem em um dia: quantas vezes nós disparamos comentários no modo ''crítica''? Ou mesmo pensamos de modo semelhante? Não estou livre disto, muito pelo contrário. Apenas COMEÇO a me dar conta do processo. Há um comportamento oposto, que eu considero mais adequado. Ao qual eu estou mais inclinado no momento. É o de ''observador''. O ''observador'' não luta com os fenômenos que analisa. O ''observador'' é mais descritivo do que analítico. Minha meta é ser cada vez mais ''observador'' que ''crítico''. O PROBLEMA ( e não é que sempre há um PROBLEMA a resolver?) é que as FRONTEIRAS entre um e outro comportamento não são muito nítidas, distingüíveis. Não há um ''puro crítico'', nem um ''puro observador''. É difícil descrever até mesmo o comportamento de crianças sem relatar que uma ''está com o dedo na boca'', ou a outra ''gosta de puxar os cabelos das amiguinhas''. O relato de algo ''desagradável'' - a própria expressão sintetiza o linguajar ''crítico'' -denota um certo desconforto com o que descrevemos. A escolha dos temas, em que costumam predominar aqueles assuntos que amamos, também nos tira por vezes de uma linha ''puramente descritiva''. Vez por outra vocês depararão, aqui, com textos inclinados a uma postura ''crítica''. É difícil romper com o passado de uma vez só...Mas a idéia por trás deste blog é a de fazer fotografias com as palavras( talvez, vez por outra, algumas fotos ''reais'' também...). Rotular fatos da vida com etiquetas de ''bom'', ''ruim'', ''errado'', ''certo'', etc. no fundo é uma maneira de colocar o pé no freio, conter-se ante o que está acontecendo. É DIMINUIR o que observamos no mundo fenomênico. Observar, puramente observar- por outro lado- é colocar o pé no acelerador, é mergulhar na vida. A postura ''crítica'' nada mais é do que colocar-se à margem, não participar do que acontece ante os nossos olhos. ''Críticos'', por mais progressistas que se queiram, não passam de ''REA-CIONÁRIOS'' ( escrito separadamente para enfatizar que eles RE-AGEM aos fatos que não apreciam...). Os ''críticos'', e o mundo da arte é a maior expressão disto, tem uma extrema dificuldade de criar algo. Coloque um ''crítico'' ante um texto, e ele ficará preocupado em ''corrigí-lo'', apontar os inúmeros erros de português. Homem dos bastidores, escolhe sempre ficar em segundo plano ante as criações que analisa, ''abomina'', mas, no fundo, não consegue ficar longe delas...O ''crítico'' é um amante às avessas...
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Ainda Campos do Jordão
Lembro-me de uma viagem que fiz há muitos anos ao litoral paulista. Foi um choque ver aquelas praias todas, já naquela época, ocupadas por casas e mansões. Em determinados trechos, foi preciso rodar de carro por vários minutos até poder ver o mar. Este foi o primeiro contato com a ocupação de territórios ''estilo paulista''. Hoje isto não choca mais ninguém, tornando-se mesmo o modelo nacional de ocupação de nosso extenso litoral. Florianópolis, como já abordei em um outro post, caminha a passos largos para isto. A mesma sensação desagradável que tive em outra época, por Caraguatatuba e São Sebastião, tive no último fim-de-semana em Campos do Jordão. Não negamos a ninguém o direito de possuir os seus imóveis em lugares belos e estratégicos. Porém, é preciso saber ''retirar os ovos sem matar as galinhas''. Em Campos do Jordão, pude constatar, a natureza- que é a principal razão para deslocar-nos para aquela região- está muito castigada. Quase todos os morros estão TOMADOS por milhares de casas, a maior parte delas desocupadas. Claro que, com todo este ''agito'', era inevitável que uma IMENSA FAVELA tomasse um morro inteiro na entrada da cidade. Imagino quantas árvores, quantas ARAUCÁRIAS- espécie rara, tão comum naquela região- foram derrubadas para dar espaço a todas estas construções. E uma GRANDE DECEPÇÃO foi rodar boa parte da cidade para ver uma cachoeira ''urbanizada'', a cachoeira mais ''chinfrim'' que já vi em toda a minha vida: mais parecia as quedas do belo Parque Tanguá, em Curitiba, todas com a intervenção humana. Um fiapo de água, com cimento ao redor. A de Campos do Jordão perdia, sinceramente, para as cachoeiras urbanas do Parque Tanguá...Mas este é o modelo paulista de ocupação, caracterizado pela privatização de áreas públicas. Assim, todos querem ter os seus imóveis nas praias- e Guarujá mais parece uma ''cidade fantasma'' com todos aqueles prédios vazios e quase ninguem nas ruas- e suas casas na montanha. Resulta que, para darmos a todos o seu direito de ter casas na praia ou na montanha, podemos acabar com a própria montanha...ou com a praia...Por tudo isto saí com a sensação de ter passado por uma extensão de São Paulo, uma extensão dos shoppings, uma extensão dos condomínios...A própria São Paulo, por incrível que pareça, parece ter muito mais vida, parece estar menos tocada pela mão do homem que as suas extensões próximas...Ao menos aqui os condomínios de casas estão longe...
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Fotos X Memória
Subi pelo teleférico a um ponto bem elevado da cidade de Campos do Jordão, de onde pude avistar toda a cidade. E lá, bem ao nosso lado, outros turistas iam posando para a tradicional rodada de fotos que é feita nestes lugares. Imagino que, em um futuro não muito distante, será impossível transitar por estes pontos turísticos tradicionais. Explico: você estará sempre ''atrapalhando'' a foto de uma outra pessoa. O que me pergunto, no fundo, é uma outra coisa. Cientistas estão preocupados com o armazenamento de informações nos frágeis meios digitais- isto atrapalhará o trabalho dos historiadores do futuro, graças à sua perecibilidade. Não estará acontecendo algo preocupante com a disseminação de todas estas câmeras digitais e celulares com fotos? A necessidade de olharmos um álbum de fotos de algum lugar em que estivemos- fotos estas que não terão o mesmo valor emocional para outras pessoas- afetará em que medida a nossa memória? A foto, me desculpem os apreciadores desta arte, é sempre uma redução, um enquadramento limitado do real. Sera´que todos estes fotógrafos amadores estão se preocupando, com a mesma ênfase, em guardar alguma recordação significativa, uma emoção gostosa relacionada ao lugar que estão visitando? A fotografia, disseminada, virou uma ''commodity'' barata, tão barata- em todos os sentidos- quanto o preço de todas estas câmeras e celulares. E a imagem- barata, disseminada e onipresente- não chega, a meu ver, aos pés da PALAVRA( esta sim real, não ''fake''). PS: Se bem que dizem que a invenção DO LIVRO prejudicou a nossa memória, uma vez que ANTES havia pessoas especializadas na arte de DECORAR textos inteiros...
Fugindo do ''fake''???!
A questão que faço é simples: haveria como fugir do ''fake''? A esta altura do campeonato, com a onipresença da imagem, haveria alguém ainda neste mundo que não posasse ante a presença de outros olhos, ou de uma máquina fotográfica ou de uma câmera? Estamos tratando da cada vez mais hipótetica possibilidade de encontrar um ser humano ''puro'', livre do ar ''blasé'' e fingido de todos os que somos tocados pelo universo midiático...Primeiramente, é preciso indagar se já houve alguma sociedade humana não influenciada pela aparência. Ao menos nos últimos 500 anos, temos relatos que mostram toda a força da moda, da roupagem, da imagem. Isto não surgiu hoje, Porém, o advento dos meios de comunicação contemporâneos potencializou estas características do ser humano. Elevou-as ao máximo. Hoje, inconscientemente, todos se comportam não mais como meros assistentes, espectadores. Ostentamos o ar de ''estrelas'' em busca do olhar do próximo. Tudo isto é um universo meio feminino: as mulheres não nos olham de frente, salvo raríssimos casos. Elas passam, e com o canto dos olhos reparam se você está olhando para elas... Hoje há um fato cada vez mais comum, e que transcende a fronteira entre os sexos: nos transformamos, com toda esta mídia, em espectadores ''frouxos'' e desatentos, péssimos ouvintes. Mas, paradoxalmente, estamos cada vez mais carentes de atenção, dependentes dos olhares alheios, carentes de um ''palco''. E estas necessidades sufocadas, não satisfeitas, explodem cada vez mais na forma de comportamentos violentos. Uma pessoa que bebe e sai dirigindo à toda, atropelando diversos pedestres não é bem um exemplo de um ser humano feliz, não é? As ''ilhas'' em que nos transformamos todos- cada um em seu universo particular, na sua casa, no seu carro, no seu condomínio- estas ''ilhas'' estão, no fundo, carentes da mercadoria mais rara da atualidade: a atenção. Os serviços massificados se deterioram, enquanto as coisas personalizadas e individualizadas tem um alto preço. Compare o atendimento de uma empresa de telefonia celular ao de um restaurante de luxo: na primeira vez que precisei de um serviço, após adquirir o meu telefone móvel, fiquei esperando cerca de 30 minutos em uma destas lojas para, ao final, desistir. Enquanto isto, no restaurante, maitre e garçons te cercam de todos os mimos. Detalhe: a atenção dos outros custa caro. A atenção não é a mesma no restaurante 5 estrelas e no McDonald's...Pessoas carentes de atenção lotam os consultórios dos psicanalistas. Entram em lojas, para comprar, seduzidos pela falsa cortesia das vendedoras. Compram, compram e compram. Mas este consumo todo não as satisfaz, talvez apenas por breves instantes. Incrível esta capacidade das mercadorias de nos seduzirem e desencantarem logo a seguir... E continuam, muitos, comprando mais...Mas fujo do tema principal: a pose. Tenho/temos muitos a tentação irresistível de buscar, de observar o ser humano ''como ele é''. Sem a pose. Sem saber que está sendo visto. E é este nosso ''voyerismo''' que sustenta toda a indústria da televisão e da sétima arte. Tal é esta nossa carência, que pagamos cotidianamente para assistir pessoas representando situações da chamada ''vida real''. Mas, ao contrário da maioria, não tenho a menor atração por programas do estilo ''Big Brother'': ali os seres humanos comuns SABEM que estão sendo vistos, e se comportam de forma tão falsa como a dos atores. Interessa-me, neste mundo de representações, a visão de alguém ANTES que esta pessoa se dê conta do nosso olhar, e comece a posar...Isto é dificílimo, principalmente em relação ás mulheres: elas parecem contar com anteninhas, com um estranho ''sexto sentido'' que lhes dá uma visão 360 graus do que está ao redor...Mesmo que não manifestem o menor apreço por quem as observa, e finjam ignorar-nos, elas estão cientes de que estão sendo vistas- e vão computando em suas mentes estes ''pontos'' todos que vão fazendo nos diversos ambientes. O mundo do olhar é o mundo feminino por excelência. As mulheres sempre foram educadas para serem as ''deusas'', as ''belas''. Diga a uma que ela é ''inteligente'', e ela sorrirá amarelo. Agora, diga mesmo a uma vovó que ela é ''linda'', e ela dará um sorriso coquete, sedutor. Por isto, como transitam com naturalidade por todo este universo de cirurgiões plásticos, moda, produtos de beleza/maquiagem, creio que as mulheres sequer sentiram a transição para este mundo ''fake'' em que vivemos. O universo feminino- e o destas réplicas ''fake'' do feminino que são os travestis- há muito transita com familiaridade entre o real e a réplica, a cópia reestilizada. Mulheres compram bolsas no Bom Retiro e depois as exibem ou vendem para suas amigas sem o menor pudor, misturando-as aos produtos ''oficiais''. A moda, em geral, é o universo do feminino, há muito tempo. Se buscarmos uma pessoa não posada, ''real'', teremos de nos mudar para uma distante ilhota do Pacífico, ou embarcamos em uma viagem pelo tempo em direção à Pré-História. A imagem venceu, percebamos este fato ou não, e comanda tudo, onipresente e auto-satisfeita...Como uma Giselle Bündchen...
Primeira vez em Campos do Jordão
Um rápido ''city tour'' em uma van- que está substituindo o tradicional trenzinho motorizado que percorre os principais pontos turísticos da cidade- e o guia vai informando que aqui é a mansão do ''ex-ministro Fulano'' e ali é a mansão de Edir Macedo, e ali é a mansão de não-sei-quem. A cidade, ao melhor estilo paulista, está toda fatiada. Campos do Jordão é o interior ''reestilizado'', ''fake''. Longe de mim criticar isto, urbanóide que sou. Mas, se você quer desfrutar alguns momentos de tranqüilidade longe do ''stress'' da cidade grande, fuja de Campos. Esta é um grande prolongamento de São Paulo, um ''shopping a céu aberto''. Mesmo não fazendo muito frio durante o dia, cerca de 20 graus no sábado meio-dia e 22 no domingo, ali os paulistanos e demais turistas aproveitam para usar seus sobretudos, cachecóis, luvas e outras roupas típicas de inverno que são alardeadas e vendidas em todas as esquinas da cidade. O ''marco zero'' da cidade- a Cervejaria Baden Baden- está lotado desde cedo, com filas de espera. Carrões passam lentamente, e seus passageiros botam a cabeça para fora para serem vistos. Carros são desnecessários ali- onde tudo é perto- mas, tal como na cidade grande, são uma marca distintiva de seus proprietários, um símbolo de ''status''. Por isto, na hora de ''rush'', Campos do Jordão tem mini-engarrafamentos. Neste gigantesco ''shopping a céu aberto'', esta extensão de São Paulo nas montanhas montada pelo capital, não nos sentimos longe da cidade grande: mini conjuntos comerciais ostentam as marcas de grifes famosas, na hora de tomar um café podemos optar entre um ''Fran's Café'', uma ''Casa do Pão de Queijo'', uma ''Copenhagen''. Fora destes lugares padrão, similares aos de cidades maiores, só nos resta escolher alguma das inúmeras lojas que vendem chocolates locais. O ''fondue''- que não é de nossa preferência alimentar- ali é onipresente, vendido nas suas diferentes formas. Campos do Jordão é uma réplica de cidades sulinas como Gramado e Canela. E estas, por sua vez, são réplicas de cidades européias... A diferença, significativa por sinal, é que a cervejaria ''alemã'' de Campos do Jordão não é alemã, nem foi criada por imigrantes alemãos...Por isto Campos do Jordão é ''fake'', ''réplica das réplicas''. Não quer dizer que seja pior que as cidades gaúchas mencionadas. Passamos bons momentos lá, e pretendemos voltar algum dia. Mas Campos do Jordão não surgiu, embora tenha muitas construções ao ''estilo europeu'', da iniciativa de imigrantes. Todas estas cidades, criadas por imigrantes ou pelo iniciativa do capital, sabem ''vender-se'' muito bem. Descobri em Campos, neste fim-de-semana, que as meias de qualidade que eu comprava em uma loja de um shopping paulistano que já fechou são produzidas ali. E eu pensava que eram importadas...Mas, pelo centro da cidade, podemos encontrar de tudo: pequenas lojas e barracas vendem todo tipo de ''lembrancinhas''- como é tradicional nestes centros turísticos. Somos assediados por todas as espécies de vendedores. A sensação, após dois dias, é a mesma que temos após algumas horas em um shopping center qualquer: de cansaço. Cansaço do barulho, cansaço das ofertas, cansaço da comida mediana comparada à da cidade grande, frustração por um frio prometido que não veio. Voltamos cansados dali, como de qualquer programa feito na cidade grande. Campos do Jordão, este interior reestilizado, ''fake'', esta suposta réplica de cidades sulinas ou vilas européias, deve ''bombar'' ainda mais no próximo feriado de ''Corpus Christi''- invadida mais uma vez por hordas de turistas que apreciam estes ambientes recriados que, francamente, não passam de outras versões de shoppings...Haverá ainda algum lugar, a esta altura, ''espontâneo'', ''legítimo'', não tomado pelo ''fake'', pelo mundo das aparências? Quem quiser procurá-los, que os procure. Conformado, eu visto a roupagem do mundo ''fake''- tão concreto e onipresente como o ar que respiramos...Ainda voltaremos a este assunto...
São Paulo- centro das réplicas...
Como abordamos no ''post'' anterior o universo das cópias, do ''fake'', é impossível não ligar isto á nossa- deste que vos fala- cidade. Mesmo porque, muito antes de toda esta pirataria tomar as ruas deste país e do mundo, São Paulo já se notabilizava como uma cidade ''fake'', cidade das réplicas. A capital paulista talvez tenha embarcado no mundinho da imagem antes mesmo de Debord escrever( há 40 anos)o seu ''Sociedade do Espetáculo''...Explico. São Paulo não se notabiliza, muito pelo contrário, pela sua beleza. Perde feio, dizem seus críticos, neste quesito para diversas cidades brasileiras- embore eu não concorde muito com esta difundida afirmação( provarei isto em outros ''posts''...). Mas é o que se diz por aí. Esta é a capital dos serviços. E a capital se notabiliza, no meio de milhares de restaurantes, hotéis, shoppings, etc, pela criação de ambientes que nos dão a impressão, por momentos, de estarmos ''fora' de São Paulo''. Ou seja, São Paulo- esta ''massacrante'' cidade- NOS VENDE ( literalmente)um ideal: a fuga de si mesma. E podemos fugir daqui por diversos meios- o menos recomendável e mais lento a escapada ''real'' pelo meio do trânsito...''Fugimos'' cotidianamente por meio de um dos inúmeros ''ambientes'' que nos são vendidos: um restaurante tailandês em forma de um templo oriental, com um pequeno lago lá dentro; uma cantina italiana, com funcionários uniformizados ao estilo daquele país; uma pizzaria que, segundo dizem, serve uma pizza ''melhor que lá na Itália'', restaurantes japoneses reestilizam, ao gosto dos clientes, a forma de fazer um ''sushi''. São Paulo é ou não é a ''capital da réplica, do fake? Outro dia mesmo virei a cabeça, aqui nos Jardins, para ver uma Ferrari passar. Pois, logo à frente, a suposta ''Ferrari'' começou a ter um problema no escapamento, como um carro comum, e quase parou...Eu caí, uma vez mais, na onda do ''fake''...No próximo ''post'' trataremos de um lugar próximo que também se especializou no ''fake'': Campos de Jordão, onde estivemos no último fim-de-semana...PS: E ainda sequer tratamos destes ''epicentros fake'' que são os shopping centers e os condomínios residenciais...
Viagem ao Universo das Réplicas
Na última quinta-feira, fui convidado por duas conhecidas para acompanhá-las durante suas compras no eixo 25 de março/Bom Retiro. As duas não moram na cidade: vieram especificamente para isto. O interessante é que o mundo da ''moda paralela'' profissionaliza-se cada vez mais: hotéis luxuosos, que não ficam a dever em relação aos similares dos Jardins, shoppings que reúnem diversos lojistas- e que são mostrados até em novelas de TV( inclusive há uma TV que não esconde utilizar as roupas vendidas nesta região do Bom Retiro para vestir seus funcionários e atores, em uma espécie de ''convênio''). Estamos no mundo do ''fake'', do que APARENTA ser algo. Os próximos posts, já planejados, tratarão deste assunto exaustivamente. Mas, voltando ao Bom Retiro, vendedoras em lojas cheias anunciam as últimas novidades estilo ''Chanel'' - que fique bem entendido: réplicas da famosa marca francesa...As duas entram e saem das lojas, freneticamente. Na véspera já haviam ''demarcado'' o território, localizando as melhores pechinchas. As lojas ostentam dois preços: ''varejo'' e ''atacado''( este segundo menor, para lojistas e pessoas que comprem em grande quantidade ). Ao contrário da impressão que tive na 25 de março, onde andamos nos espreitando no meio de uma enorme multidão, e as mercadorias parecem coisa de quinta categoria importada da China, no Bom Retiro as lojas são bonitas, pintadas. As ruas não estão tão cheias. Ao sairmos, após realizarem diversas compras, o motorista de táxi informou que ali era ''criada a moda do Brasil''. Errou no uso do ''criada'': ali, a céu aberto, é ''replicada'', COPIADA a moda do Brasil e do mundo. Com uma aparência que não envergonha minhas amigas e suas conhecidas de classe média. O mundinho ''fake'' vai além do conceito de ''pirataria''. Enquanto cidadãos respeitáveis adquirem roupas na 25 de março, e programas de computador na Rua Santa Ifigênia( centro de São Paulo), ou mesmo em gigantescos conjuntos comerciais em plena Avenida Paulista, até mesmo as marcas cohhecidas embarcam na busca por mais lucros a todo custo: aqui temos a ''terceirização'' da produção( e o seu produto ''IBM'' pode ter sido feito por uma empresa pequena de Taiwan...), e a fabricação em países pequenos da América Latina e do Extremo Oriente( tênis Nike ''made in Vietnã'', casacos Lacoste ''made in Peru'', etc.). Quando pensamos em ''pirataria'', isto nos remete à ação de bandidos ''externos''. Porém, os cada vez mais perfeitos produtos ''fake'' não dispensam a intervenção de gente de dentro das empresas famosas. Alguém acha que os últimos lançamentos de cinema foram copiados por um espectador dentro do cinema, com uma micro-câmera? Então como eles chegam aos camelôs SIMULTANEAMENTE ao lançamento do filme, ou mesmo antes? Reportagens extensas informam-nos que as réplicas cada vez mais perfeitas são feitas pelos mesmas confecções terceirizadas (chinesas?) que fabricam os produtos ''oficiais'', muitas vezes com o mesmo material e o mesmo molde...Não é o caso dos produtos do Bom Retiro: se o original é de couro, estes são de couro sintético...Mas enganam as suas usuárias, e isto é o que importa...O jogo das réplicas é feito também por lojas de departamento- de que já tratamos neste blog- que mantém espiões pelo mundo inteiro, para copiar os produtos das grandes grifes e lançar réplicas mais baratas para as multidões que as freqüentam...Inclusive este que vos fala...O mundo da imagem é o mundo do ''fake'', do que aparenta ser, do que ''parece que é''. A moda ''oficial'' sempre brincou com isto. A única diferença, hoje, é que a brincadeira é cada vez mais jogada por um número crescente de pessoas. Queiramos ou não- e esta crescente pirataria está ligada( como não?)à criminalidade, ao tráfico de drogas- isto tudo faz cada vez mais parte de nossas vidas. ''Brinca-se'' de replicar em plena luz do dia, à vista de todos (da Polícia, das autoridades, etc.). Não há quem não saiba disto. Não há quem, mesmo no nosso meio, não tenha tomado partido de uma destas múltiplas modalidades de ''fake'', à escolha do cliente. O ''fake'', e a tomada das economias ocidentais por quinquilharias vindas da China ''comunista'', isto tudo é a cara do ''real'', do nosso dia-a-dia. Uma ''realidade'' que é cada vez mais não distingüível das múltiplas ''realidades'' paralelas- todas aparentando a mesma coisa. O mundo atual assiste indiferente ao ''real'' sendo devorado de dentro de suas entranhas pelo ''fake'' - este sim um possível futuro do ''real'', um ''real'' em potencial do qual não sabemos ainda as conseqüências...PS: Elas voltaram com sacolas cheias do Bom Retiro. Os negócios, ali, vão muito bem, obrigado...
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Cafés em Livrarias
A maior livraria paulistana- e do país- tem um pequeno café em seu interior. E, mesmo quando está meio vazia, é quase impossível encontrar um lugar neste café. Pessoas circulam com bandejas- o sistema é de auto-atendimento- por minutos, antes de achar uma mesa para sentar. E, às vezes, a mesma está ocupada...por uma bolsa...Desde a inauguração da livraria, o café fica lotado desde as primeiras horas da manhã. Ele foi construído com belos vidros que nos dão a vista do exterior, dos carros que passam incessantemente pela rua lá fora. O Brasil, por sinal, tem destas coisas: as pessoas vão ao café para conversar, e para serem vistas, paquerar, etc. O café faz mais sucesso que a livraria, por momentos. Acho que diversas pessoas que vão àquele café ''passam batido'' pela loja que o abriga. Ao menos, para ser otimista, não é possível a estas pessoas ignorar o universo de livros da loja que abriga o pequeno café. Algumas chegam mesmo a levar livros para dar uma pequena olhadinha no café, o que também já é alguma coisa. Cafés combinam com livrarias, nada contra. Esta tem apenas um café, enquanto as outras mais parecem lojas como Casas Bahia e Ponto Frio- com todas aquelas geringonças eletrônicas.Seria mesmo otimismo em demasiado imaginar uma livraria- no Brasil- que abrigasse apenas livros, sem utilizar estes pequenos recursos para atrair movimento e clientes em potencial. Seria possível???
Duas cenas...
Uma envolve celulares. Entro em um banheiro de shopping. No box ao lado do meu, o som de uma conversa por celular. O engraçado é que, enquanto falava ao telefone, o sujeito arrancava freneticamente pedaços de papel higiênico, o que comprova uma coisa: ao que indica, é possível limpar o traseiro enquanto se usa o celular...Não me pergunte como! Engraçado pensar na reação da pessoa do outro lado da linha: será que ela estava escutando o barulho frenético do papel sendo arrancado? Será que ela podia escutar o barulho de descargas sendo acionadas? O que isto comprova é a onipresença dos celulares inclusive nos momentos mais íntimos e, na linguagem paulistana, ''complicados''...Na outra cena, ocorrida em um banheiro de um restaurante, um sujeito de 50 e poucos anos, entra no banheiro onde eu estava. Eu fui urinar, e esperava lavar as mãos logo após. O detalhe é que ele entrou no banheiro e foi logo lavar as mãos, antes de qualquer coisa. E, APÓS lavar as mãos, entrou no box para urinar...O que me dá uma dúvida: será que ele lavou as mãos NOVAMENTE após fazer as suas necessidades? A resposta eu não sei, pois eu lavei as mãos e fui almoçar. Mas ficou aquela curiosidade sobre alguém que lava as mãos ao ENTRAR no banheiro, e antes de fazer aquilo que todo mundo faz nestes lugares...
Aderindo, tardiamente, às modernidades- o CELULAR!
A esta altura do campeonato, falar sobre a aquisição de um telefone celular não é novidade para ninguém. Sequer mereceria umas linhas. Porém, no que concerne a este que vos fala, trata-se do PRIMEIRO celular. Isto mesmo: resisti a anos de cobranças, de propagandas, de promoções de aparelhos inclusive de graça. Não ter celular, a esta altura, fazia de mim um cidadão ''pré-histórico''. Era constrangedor comprar em uma loja e, na hora de dar o número de telefone fixo, ser bombardeado com a inevitável pergunta: ''mais algum?''( o/a vendedor/a ficava esperando ouvir algum número de celular, enquanto eu respondia simplesmente que era só aquele). Não ter celular me poupou por anos de ter minhas sessões de cinema, almoços, sonecas e outras coisas mais interrompidas pelo som infernal destas geringonças. Um proprietário de celular mais parece um autômato: a prioridade- aqui- é sempre do outro. O celular, no fundo, é a coleira de muita gente: de filhos, para a felicidade dos pais, dos empregados agora com jornadas ampliadas- para a felicidade de seus chefes e patrões, de namorados/as, maridos/esposas- para a alegria de seus parceiros. É de admirar que um aparelhinho tão infernal, e ruidoso, tenha conquistado a adesão entusiástica de tanta gente em tão pouco tempo. Fala-se agora em permitir celulares a bordo de aviões(?!!!)- será o fim do nosso sossego...Mas tantas propagandas disfarçadas acabaram plantando em minha mente a semente da dúvida: por que não incluir nestas ''breves'' postagens algumas imagens daquilo que estou falando? Isto, e a ilusão de que EU conseguirei prosseguir com minha vida própria sem ser interrompido por conversas irrelevantes de pessoas que poderiam muito bem mandar uma mensagem por email, me levou a adquirir uma destas geringonças infernais- vendidas a um terço do preço ''oficial'' graças à adesão a um plano qualquer que pagaremos fielmente e do qual provavelmente utilizaremos um terço, ou menos...''VOCÊS'' venceram...Mas, junto com o celular, resta a esperança de que se disseminem aqueles pequenos aparelhos capazes de bloquear todos os celulares em um raio de ''tantos metros''. Quem sabe, assim, poderemos um dia todos comer em paz, assistir um filme, ler um livro sem sermos travados pelos infernais toques dos celulares. PS: Desculpem-me, mas tenho de interromper este post para atender uma ligação...!
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